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Feliciano Tavares Monteiro

ÁGUA, SANGUE E HONRA

“Para a treva só há um remédio, a luz”. – Monteiro Lobato-

Em fevereiro de 2015 a  Embraer colocou nos ares o seu super cargueiro,

comprovando que “havia algo no ar… além de aviões de carreira”…

Nosso saudoso  amigo Ly Adorno de Carvalho, goiano de nascimento e  morador

de Vitória- ES, resolveu tomar o caminho dos ares. Só nos confortou saber que

Ly passou a vida saltando de paraquedas e treinando pupilos entre as nuvens.

Ou seja, o céu já era seu local de trabalho predileto. Mas perde o Brasil e

perdemos nós que passamos a admirar o seu impoluto caráter, como algo

diferencial.

Na década anterior  subscrevemos, com este dileto amigo, um documento

denso que o compatriota  Ly enviou, protocoladamente, à antiga ministra do

governo Luis Inácio Lula da Silva e ali apontava (diríamos que previa) os vários

problemas no abastecimento d’água em nosso país. E não sabemos se os seus

familiares guardaram a documentação. Mas temos a certeza que o mestre Ly

Adorno, como o chamávamos, nada recebeu como resposta oficial até o dia do

seu passamento. E infelizmente o problema da falta d’água, principalmente na

região semiárida, ainda se acentua a olhos vistos…

Talvez,antes de construir as estações de tratamento d’água, as nossas

instituições deveriam criar estações, ou conselhos, de tratamento ético. É de

pasmar adentrarmos ao terceiro milênio e contemplarmos organizações

modernas, industriais ou ditas tecnológicas, ignorarem as mínimas exigências

da ética.

E por falar nisto, entre marchas e contramarchas seguem as investigações da

operação Lava-jato e graças a ação da ministra Carmem Lúcia, do STF, a saga

de Teori não ficará esquecida. E esta operação se iniciou lá atrás, com quarenta

e sete arrolados. E não há como não sublinharmos este número quase

cabalístico: – de 47 listados no processo:

– No oriente é famosa a história dos 47 samurais, ou capitães…onde se relata a

epopeia de um grupo de samurais, sem mestre, que tiveram de arquitetar uma

vingança, algo necessário ao resgate da honra do clã, após o seu mestre ter

caído em desgraça, sendo forçado pelo Xogum da época, a se suicidar. E

estamos falando de 1701, ano desta maior saga do Japão.

O relato, que ganhou desenhos em cerâmicas e várias versões de teatro e

cinema, é feito por outra personagem – uma 48 º pessoa – que um dia ousou

colocar em dúvida a honra dos capitães nipônicos. Mas este observador estava

equivocado. A desforra foi feita e a honra do clã do Senhor da Torre lavada no

sangue do opressor.

O escritor Jorge Luis Borges aborda o tema em sua obra- A História Universal

da Infâmia- e tenta traduzir o caráter, ou a falta dele em dois trechos do seu

capítulo intitulado: – “O Descortês mestre de cerimônias Kotsuké No Suké”,

retrata o autor, no primeiro trecho, quando o vilão é localizado pelos 47 capitães

em fúria:

– “ Então os (…) capitães se atiraram aos pés do home odiado e lhe

disseram que eram os oficiais do senhor da Torre, de cuja perdição

e de cujo fim ele era culpado, e lhe rogaram que se suicidasse,

como um samurai deve fazê-lo. Em vão propuseram esse gesto decente a seu

ânimo servil. Era homem inacessível à honra. Pela madrugada, tiveram de

degolá-lo”.

E bem concluída a tarefa de resgate da honra de sua casa, a Casa da Torre, os

quarenta e sete vingadores se submetem, então, ao julgamento do império, e

também pela caneta de Borges podemos ter acesso ao seu já bem previsível

desfecho:

– “ A Suprema Corte dá sua sentença. É a que esperam: lhes é

dado o privilégio de se suicidarem. Todos o cumprem, alguns com

ardente serenidade, e repousam ao lado de seu senhor. Homens e

crianças vêm rezar no sepulcro desses homens tão fiéis”.

Soubemos, pela TV, do chocante suicídio de um policial fluminense, com 28

anos de idade, em sua carta testemunho, também veiculada nos meios de

telecomunicação ele alega as suas dificuldades financeiras e aponta o provável

opressor…

Sim, nós sabemos que existem enormes diferenças entre o Japão do século

XVIII e o Brasil do século XXI e por enquanto sentimo nosso clã atordoado, e

sem mestre. Mas muitos asiam por se organizar e se tornarem aptos para a

necessária vendeta. O sangue de nossos ancestrais clama pelo resgate da

decência em nosso grande clã, o clã chamado Brasil.

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