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Helena Confortin

Opinião

Felicidade: ela existe?

Vivemos tempos nem tão pacíficos, em que abalos políticos somam-se a abalos morais e a abalos psicológicos decorrentes dos anteriores e de tantos outros. Momentos de passividade por não termos opções de mudanças; momentos de ansiedade por que não sabemos o que vai acontecer num futuro próximo; momentos de angústia, pois não temos certeza se amanhã teremos emprego, casa, salário, alimentação, saúde…  Nesse contexto de insegurança e ansiedade nos perguntamos: “É possível ser feliz?”

A palavra Felicidade – do latim FELIX (feliz) que originou FELICITAS = felicidade – é classificada, pela gramática normativa da língua portuguesa, como substantivo feminino, singular, abstrato, derivada (de feliz) através do sufixo “dade” que é acrescido a adjetivos para formar substantivos que expressam a ideia de estado, situação, qualidade. É, portanto, um sentimento “abstrato”, não mensurável, que traduz o estado da pessoa satisfeita, alegre, contente. Naturalmente, vem carregado de toda uma gama de emoções, muitas vezes, contraditórias.

Todos querem e pretendem ser felizes, todos buscam meios que os conduzam à felicidade. Quer ser feliz o político que ludibria seus eleitores, que se deixa corromper pelo dinheiro e pelo poder e cuja ganância é maior que sua ética; quer ser feliz o assaltante que rouba, mata, mutila em busca de poder e reconhecimento dos seus; quer ser feliz o empresário que sonega impostos e usa de meios ilícitos para aumentar seus ganhos; também quer ser feliz o traficante que corrompe, física e moralmente, crianças e jovens e os conduz a uma vida de dependência; quer ser feliz o jovem que busca, na droga, um meio de ter mais e maiores momentos de êxtase e prazer, para não dizer de “alienação”. Quer ser feliz o operário desatento na execução da sua tarefa, o professor que diz não ter tempo suficiente para preparar sua aula, o funcionário que não dá total atenção a seu cliente, o profissional de saúde que cumpre horário reduzido e esquece o bem estar do seu paciente. Quer ser feliz a criança que não divide brinquedos, a mãe que protege e defende o filho mesmo quando ele não tem razão, o pai que supre sua ausência com dinheiro e bens…

Mas… felicidade é só isto? Ter, ser, poder, prazer… Não! Felicidade vai além. Felicidade é, também, o sorriso de uma criança que recebeu um afago carinhoso, é a vitória de um aluninho que leu/escreveu sua primeira palavra, é a emoção do jovem que logrou êxito no vestibular, que conquistou seu diploma, que assinou seu primeiro contrato de trabalho… Felicidade é olhar uma flor desfolhada, uma chama crepitando na lareira, um pôr de sol colorido, uma folha caída no chão. Felicidade é uma cama quentinha numa noite de inverno, é feijão na panela, é pinhão na chapa, é comida no prato, é um café coado, um chimarrão bem cevado. Felicidade é um abano de partida, uma mensagem escondida, um beijo roubado, um abraço apertado. Felicidade é o voo do pássaro, o soprar do vento, o beijo do sol aquecendo, o canto do pássaro, o grito de gol, a música ao longe. Felicidade é o olhar embaçado de perda, susto, suspense…

Felicidade é fazer o que se ama e amar o que se faz, é aceitação de diferenças, respeito mútuo, convivência fraterna e amigável. É ser criança para brincar com crianças, é ser jovem para conversar com jovens, é ser adulto para aconselhar adultos, é ser patrão para entender subordinados e ser subordinado para acatar patrões, é estar dos dois lados do balcão na empresa, é ser desbravador e conservador ao mesmo tempo, é ser líder e liderado no desempenho da profissão, é ser educador e aprendiz que busca verdades. Felicidade é fugir da monotonia do dia a dia e buscar, na afoiteza da vida, novas oportunidades; é ser conformado e pacífico para ter uma vida sossegada e, ao mesmo tempo, ser inquieto e considerar que a vida só vale a pena se for alimentada pela adrenalina na expansão dos próprios limites. Felicidade é ser sonhador e delirante ou ser acomodado e sensato; é ambicionar a reforma do mundo, sonhar o possível e o impossível e realizar apenas o necessário. É sonhar com desafios e se satisfazer com as coisas simples que não exigem esforço e trabalho. Felicidade é ter medo do desconhecido e não ter medo de ter medo. É ter coragem de olhar para trás e ver um longo caminho percorrido, às vezes bastante sinuoso; é olhar para a frente e ter gana de desbravar novos horizontes, mesmo que desconhecidos e por caminhos difíceis. E aceitar que nem sempre acertamos na vida, mas que é de erros e acertos que se constrói um caminho sólido e seguro. Felicidade é aceitar as coisas boas e más que nos acontecem todo dia. É ouvir a vida, seus desafios, seus apelos, seus gritos… e correr para a frente porque é para lá que vão os que conquistam o direito de sentir orgulho de ter vivido. “Felicidade são pedacinhos de ternura que colhemos aqui e ali” (Cecília Meirelles).

Isto é FELICIDADE…  e ela existe, sim. Basta buscá-la onde a colocamos.

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