a rádio web da cidade

AO VIVO
Baixe já seu app
PUBLICIDADE

José Adelar Ody

Opinião

Rosane!

WhatsApp Image 2016-08-26 at 11.06.08 AM-1 (1)

“Saudações, 

A senhora sabe tanto quanto eu, que pedido seu, sempre era atendido o mais depressa possível.

– Ody querido, vê se pode fazer uma matéria sobre…

Eu dava um jeito.

 

Mas o que aconteceu no dia 26 de julho, francamente, até agora ainda não me é de acreditar, porquanto quase lá se vai um mês e eu ainda estou lhe devendo – professora Rosane.

 

Nesse meio tempo tive um sonho, e que também me fez e faz pensar sempre que me acho plenamente acordado.

 

Vou lhe contar mesmo assim.

Rosane, não é de acreditar

– mas sonhei.

Só para descontrair,

como a gente fazia e sei

da sua aprovação: “a gente sonha cada coisa, hein profe!”.

 

Olha só.

Sonhei que dia 26 estava na frente do reitor para informações sobre

uma visita no dia anterior,

era 8h30min se tanto.

Acho que menos. Tocou o telefone

e o reitor enrijeceu os músculos do rosto.

 

Aí ele começou a perguntar… “mas você está bem! E os outros?

 

O reitor então mudou de cor e colocou a mão no bocal do telefone e me disse: o carro da reitoria se acidentou.

É a Ane. E a coisa é séria.

Perto de Panambi.

 

Larguei a caneta e o papel e fui para a minha sala. Alguém comentou que estavam no carro a senhora,

o Gerson, a Ane e a Cleusa.

 

Meu instinto jornalístico

locou me colou o telefone

na mão e passei a ligar para a PRF de Carazinho, depois de Ijuí, e de Erechim.

 

Meu sonho tinha cara de real.

Num relance e já estavam

todos correndo na reitoria. Ligando para quem pudessem e as notícias que vinham eram cada vez piores.

 

Falavam em acidente grave.

E dali a pouco que tinha uma

vítima fatal.

E os demais? – ninguém sabia nada.

Ademais… quem teria morrido?

 

E o sonho ia me botando a fazer as coisas instintivamente. Quando vi estava falando com gente de hospital,

de Pronto Socorro… Essas coisas que só as tragédias movem.

Numa hora qualquer falar

com quem nunca se viu,

se soube e talvez nunca de conheça.

 

Junto à Polícia Rodoviária Federal de Cruz Alta, se não engano, veio a informação que a vítima fatal

do acidente que estava

no meu sonho – era uma mulher.

 

Nem deu tempo de fazer

nova ligação e a Bere (Berenice)

entrou na sala e da porta,

e assim, sem mais nem menos

– lhe caiu da boca: “A profe Rosane faleceu!’.

 

Que sonho. Que sonho!

Não podia ser verdade – afinal era um sonho.

Quatro colegas da reitoria indo para Santiago, e, de repente,

a notícia que a Rosane estava morta,

 que os demais estavam quebrados, feridos ou não se sabia bem como,

o carro capotado no meio do mato…

e pensar que tudo aquilo,

carro e pessoas

tinham saído de Erechim menos de três horas antes

– alegres, com chimarrão,

viajando para mais um encontro sobre a Formação Continuada,

uma espécie de “menina dos olhos”

da pró-reitora.

 

Olha – Rosane, 

sem dúvidas um sonho horrível.

Mais adiante foram buscar

o Ery – “Lelé” e alguns amigos,

e amigos médicos para lhe

a trágica notícia.

 

Quando vi o gabinete do reitor

estava cheio de pessoas que,

nenhuma delas poderia supor

que naquele dia,

naquela hora, estaria no gabinete do reitor para presenciar e participar do que sucedeu. Essas coisas a não escreve

nem descreve.

A gente apenas vive.

Passa.

Ou sonha.

 

Meu sonho continuou administrando

o que a imprensa queria saber ou confirmar,

e eu segurando até ter

 uma informação oficial da polícia,

enfim, e que…

se fosse possível

– que desmentisse aquele

meu sonho desgraçado,

mas que já era público.

 

Lá pelas dez para às onze a

polícia civil de Panambi me ligou

e confirmou,

imagina só Rosane

– que você tinha falecido,

que você era a vítima fatal

do acidente.

É como eu disse: “a gente

sonha cada coisa…!”.

 

Dali para frente meu sonho

se embaralhou de tal forma

que as coisas, volto a frisar,

foram passando pela minha cabeça e mãos,

e por todos da reitoria,

dos câmpus e do círculo de parentes

e amigos seus e o do “Lelé” ,

com uma naturalidade

muito parecida

como as águas de um riacho

que correm seguindo seu rumo,

contornando obstáculos

da geografia

ou largados na água,

glup, glup, blup, bluppp…

subindo, descendo,

dançando no meio e nas margenzinhas,

mas invariavelmente

descendo, descendo,

descendo precipitando-se e

m direção ao seu fim – (rio tem fim?).

 

O dia passou,

a noite veio e vá sonhar.

Era quase meia noite daquele

26 de julho e sonhei que estava dentro

de um ônibus especial,

e ali, um por um,

seus colegas da reitoria

e até do câmpus

e amigos seus e do “Lelé”,

com travesseiros, mantas,

entrouxados se acomodando

em silêncio no ônibus.

 

Pensa Rosane: estávamos juntos

para ir a Santiago.

Que sonho

– Nossa Senhora de Fátima.

Vê se pode!?

Ir a Santiago a meia noite – fazer o quê?

 

Pelo que sonhei ainda fui à noite

ver o Gerson na UTI do Caridade,

e as notícias eram de ter de esperar 24 horas,

e a Cleusa na casa dela – onde

até a doutora Helena

apareceu para ver como estava

sua sempre amiga de sempre.

 

Lá pelas sete da manhã

o ônibus encostou num posto

em Santiago, na sua Santiago.

Pertinho estava o hotel onde ficamos

quando da posse do professor Bruno

em tempos nem tão idos assim

– mas tempos que nunca dão tempo

para qualquer parada.

 

E se fosse verdade o que estava

sonhando,

não seria de dar razão

ao tempo e suas estrepolias?

 

Olha “profe”…

uma hora depois estávamos

no câmpus

– vazio.

Era um vazio emoldurado

de acinzentado e de um silêncio

gritante!

Só podia ser um sonho

– mas havia mais

que uma nesga de desconfiança

naquele cenário para ser só…

um sonho.  

 

Sempre temi mais os silêncios,

os vazios, as ausências em palcos,

onde a rotima mandava que

tomados por vozerio, idas e vindas de carros,

pela pressa de uns e outros.

Mas no meu sonho não havia

nada disso

lá no câmpus em Santiago.

 

Era um meio de semana,

todo mundo no trabalho, frio,

céu cinza crispado de nuvens

que só cederam perto do meio dia.

E a URI lá – muda.

Quieta.

Os campos ao longe dormiam

sem poderem fazer nada.

De algum lugar vinha um ou outro

latido cortando o silêncio

que logo se fechava em cicatriz.

 

Subimos ao primeiro andar

de um prédio e entramos

em enorme salão,

e veja só Rosane,

meu sonho foi adiante,

caminhando até me colocar

à sua frente,

– ali, sem vida.

 

Desconfiei do sonho.

Quis me acordar e concluir que… tudo bem, apesar do pesadelo,

era um sonho,

mas não.

Toquei sua mão e

 continuei sonhando porque, afinal,

lá estava a Rosane

com seu indefectível

e eterno sorriso nos lábios.

 

Muita coisa lá se passou e à tarde

voltamos a Erechim. E seu sempre sonhando,

até com o Ypiranga que naquele noite jogaria contra o Fluminense,

imagina só

se não era mesmo um sonho!

O Fluminense pela primeira vez

no Colosso da Lagoa

e o estádio quase cheio

para o Canarinho pela Copa do Brasil.

 

Não deu outra.

Estacionamos em frente ao câmpus

e tudo estava tomado de carros.

Quadras e quadras do Colosso.

É claro – o meu sonho estava certo.

Se confirmava.

Assim como a Rosane…

e

m Santiago –  em Erechim

o Fluminense.

 

No dia seguinte estranhei

porque nem todos apareceram na reitoria.

O reitor liberara quem quisesse

se refazer em casa – mas e o meu sonho!?

Se refazer do quê? Ããããhhhh…

então fora só o meu sonho que produzira tudo aquilo do dia anterior…

 

Eu passei amanhã na reitoria

– e dava sinais de querer me acordar daquela coisa toda.

Os dias foram passando,

passando,

e eu ainda não tendo noção da realidade continuava a apostar que

aquele 26 de julho, com suas ações, decorrências

e conseqüências

– eram obra contidas

dentro de um maldito pesadelo.

 

Comecei a ficar desconfiado mais ainda quando não a vi mais entrando em sua sala. Lembro-me que

na segunda-feira,

dia anterior ao meu sonho,

a senhora me chamou à sua sala para saber sobre

a postagem da matéria da Formação

no câmpus de Frederico.

 

Falei com a Gerusa em Frederico e ela explicou que tinham postado, mas a matéria já havia saído

do rosto da página.

No entanto o texto, com as fotos,

estava lá.

A senhora, com a calma de sempre

então deixou um: “está bem.

Aqui ó, Ody!”

Era quase meio dia de segunda-feira 25.

No meu sonho seria nosso adeus.

 

Olha Rosane, 

esse sonho não tem fim.

Na sequência

sonhei com a sua sala fechada, lua apagada, e de repente

as gurias da reitoria tirando isso,

aquilo…

e dali a pouco missa lá no Seminário,

 e meu sonho começou

a se desfazer.

Nossa Senhora de Fátima,

até o padre Válter disse que no domingo anterior a senhora leu um trecho

durante a missa…

 

Hoje, um mês depois,

sinceramente Rosane,

renovo as minhas escusas por ter levado tanto tempo para me refazer do que eu não queria acreditar.

Pra quem achar que estou cutucando desnecessariamente a ferida,

explico que cronista

têm compromissos

com sua consciência.

Não fiz antes porque…

 

A senhora que sempre

foi do ramo (escrita) sabe

como são essas coisas,

e considerando o que eu

supunha sonho e de repente virar realidade,

fica difícil achar o início,

o fio da meada e começar.

 

Mas mesmo diante da mais dura realidade, eu ainda me convenço

de uma coisa. Se isso aconteceu

– e aconteceu; mas não podia

ter tido um fim assim.

 

Fico com as palavras do “Lelé”

um dia desses na frente da Hobby,

quando com os olhos vermelhos

me disse: “Ody – eu consigo lidar bem

com a vida e com a morte.

Só não sei lidar com a saudade!”.

 

É… Rosane, 

a gente sonha coisa.

Olha só agora!

Ando sonhando que temos

alguns funcionários

novos na reitoria,

que todos os funcionários,

imagina! – agora vestem uniformes

(e tem que ver como ficou bonito…

A Sofia ficou com jeito de

embaixadora com os trajezinhos

em azul e preto…

Eu então – my God, só vendo…).

Mas então Rosane, ando sonhando essas coisas.

 

Com uma sala que anda sempre vazia,

e veja; uma sala onde a vida respirava.

Ali hoje o feixe de trigo

dorme no seu vaso.

Talvez esperando…

 

Sonho todos os dias que

estou chegando na reitoria

com a Miriam ou com a Jô.

Que levo cuias e térmicas às salas superiores…

e olha só, sonhei que até colocaram

uma recepcionista com nome e tudo…

é Bruna, no térreo… e,

enfim,

que fizemos um dia dos pais

e como você não estava

– a Jô leu uma mensagem.

Ela até lembrou: “Era sempre

a professora Rosane que fazia,

então..” Mas se saiu muito bem.

 

Tenho sonhado 

que me convidaram

para entrar na Academia Erechinense

de Letras,

a também tua Academia,

que a cadeira 27 está vazia,

que estão fazendo um corredor

de passeio em dos lugares

preferidos teus,

o Santuário de Fátima,

sonhei que a cidade não terá duas candidaturas, mas três à prefeitura,

que as águas de Marcelino Ramos

não a verão mais,

que o Ypiranga contratou

o Marcelinho Paraíba,

que o Atlântico bateu a ACBF,

que a Cotrel, a Comil e Intecnial

estão acusando a crise,

que a Cotrel foi a leielão (Santo Deus! – como?)

que a Dilma vai mesmo

ser afastada…

Cada coisa!  

Sonhei que a Ane voltou

a trabalhar,

que a Cleusa e o Gerson ainda estão

se recuperando e nem me lembro

bem do quê!?

 

Olha só Rosane – cheguei até a sonhar esses dias que

o reitor Luiz Mario

andou pelas rádios falando

e explicando que “agora sim!

– a Medicina está batendo

à porta da URI”.

A senhora pode imaginar uma coisa dessas!?

– um sonho desses

e que sempre foi um sonho

seu também! Santa Mãe.

 

E assim – sonhando ontem,

sonhando hoje, a gente

vai em frente,

Rosane,

sonhando com o amanhã

que ainda não chegou – se vir.

Na verdade o amanhã até vem, mas ninguém pode garantir

que esse sonho nos dará

o prazer da sua realidade.

 

Pra dizer a verdade nem sei mais bem

 o que é sonho e o que realidade.

O sonho não é uma realidade?

E a realidade não deixa de ser um sonho.

É uma confusão

 que a gente nem sabe mais

por aonde começar para dar crédito

a certas coisas – se reais ou imaginárias.

 

Talvez do “outro lado” a

lgumas percepções ou conclusões

sejam de fato mais confiáveis.

Virgem – agora me perdi de verdade.

Acho melhor parar por aqui antes de acordar dessa…

realidade.

 

Me ocorre por fim,

junto a um profundo e eterno agradecimento à sua doçura,

Rosane,

dar mais tempo à reflexão,

sobre um dito atribuído

ao Padre Antonio Vieira a respeito

de vivos e mortos, mortos e vivos.

Teria dito o padre: “a morte é pó deitado.

A vida é pó em pé!”.

 

PS – 1 – Desculpe o atraso.

2 – Podia ter colocado outro título na tua fala de encerramento do Ciclo de Formação, lá em FW e que me deixaste para a matéria: “Mensagem final – profª Rosane!”.

Publicidade
Publicidade