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Rogério Mesquita

Opinião

A SOCIEDADE ENFERMA

Em artigo anterior, intitulado “Características da Personalidade Sadia em Maslow”, listei as seguintes características: 1) uma percepção mais clara e mais eficiente da realidade; 2) mais abertura à experiência; 3) maior integração, totalidade e unidade da pessoa; 4) maior espontaneidade, expressividade; pleno funcionamento; vivacidade; 5) um eu real; uma firme identidade; autonomia, unicidade; 6) maior objetividade, desprendimento, transcendência do eu; 7) recuperação da criatividade; 8) capacidade para fundir o concreto com o abstrato; 9) estrutura democrática de caráter; 10) capacidade de amar.

No presente artigo, pretendo comparar tais características da personalidade sadia com a postura de radicalismo manifestada nas redes sociais, decorrente da aproximação das pessoas que pensam parecido, o que acarretou a formação de grupos com posições cada vez mais extremistas, sem qualquer interação ou integração com grupos de posições distintas. Ao contrário, são difundidas manifestações de desprezo, de acusações pelos males sociais, e o que é pior, discursos de ódio tornaram-se frequentes.

Pois bem. Quanto à característica “percepção mais clara e mais eficiente da realidade” (1), é evidente que as manifestações maniqueístas – visão simplista de bem vs. mal, sendo que o mal está sempre encarnado no oponente – são carentes de clareza, pois não têm alcance dos pontos positivos e dos pontos negativos de cada uma das posições em conflito, o que impede uma percepção eficiente da realidade e “mais abertura à experiência” (2), pois é impensável assumir a posição do outro, ainda que em tese, para entender suas razões. Isso vem em detrimento de uma “maior integração, totalidade e unidade da pessoa”(3), ante a negação da diversidade.

No que concerne à postura de “maior espontaneidade, expressividade; pleno funcionamento; vivacidade” (4), a limitação das experiências ao interior do grupo social, cultural ou político inibe o desenvolvimento da característica referida e, por via reflexa, acaba por restringir o acesso a “um eu real; uma firme identidade; autonomia, unicidade” (5), pois a firmeza de identidade diz respeito somente ao grupo, ou seja, em detrimento do “eu”, da autonomia e da unidade na multiplicidade.

Esse comprometimento incondicional com o grupo constitui um óbice para uma “maior objetividade, desprendimento, transcendência do eu” (6). Com efeito, falta objetividade para analisar o contexto, pois a subjetividade contaminada pela parcialidade acrítica prevalece. Falta desprendimento para problematizar as próprias certezas, para criar perguntas para as respostas já estabelecidas, e, consequentemente, há impossibilidade de transcender o “eu”, pois esse estado de coisas torna inviável assumir uma posição de empatia com o outro, prevalecendo uma postura mais arrogante.

Além disso, o comportamento radical – nós (os bons) vs. eles (os maus) – incentivado pelos grupos nas redes sociais, edifica um obstáculo intransponível para a “recuperação da criatividade” (7), pois a singeleza da estreita visão de mundo impede o vislumbre de toda a riqueza das situações implicadas em cada tema, em cada cultura, em cada grupamento social, em cada ideologia. É claro que isso prejudica a “capacidade para fundir o concreto com o abstrato” (8), já que o estabelecimento de um elo entre a situação prática e a teoria pressupõe uma busca sincera do entendimento da diversidade, inexistente no caso.

E uma coisa muito grave é a incapacidade de cultivar uma “estrutura democrática de caráter” (9), que vem em detrimento do encontro da unidade do “eu” na multiplicidade típica do mundo atual. E, ainda, consiste em impedimento para a prática de comportamentos imprescindíveis, como a tolerância, o respeito e o reconhecimento recíproco. Por isso, cabe citar uma recomendação muito conhecida, que mantém sua natureza urgentíssima: “Eu discordo do que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de o continuar dizendo” (Helvétius).

Em verdade, as práticas democráticas foram definitivamente abandonadas, bem como a própria razão, em prol de um mero sentimento irascível de pertinência a um grupo. Isso explica a proliferação dos grupos extremistas em todos os quadrantes, inclusive nos Estados Unidos, país considerado a maior democracia do planeta. É preciso lutar por uma democracia viva, real, e não mera retórica no “pântano enganoso das bocas” (Thiago de Mello).

No entanto, tal objetivo exige maior “capacidade de amar” (10), na linha preconizada por Santo Agostinho: “Ama e faz o que quiseres”. É evidente que não se pode esperar uma conduta amorosa atualmente, eis que prevalece uma postura diametralmente oposta, ou seja, o discurso de ódio destilado contra todas as diferenças reais, possíveis e imagináveis, a comprovar rigorosamente que vivemos numa sociedade enferma.

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