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José Adelar Ody

Os simples – porta vozes do silêncio

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Foto: Clari e Edison Cervi (Arquivo família/Divulgação)

 

É da tradição dos homens

que vivem em comunidade,

desde um simples vilarejo

a uma metrópole, prestar

suas reverências às pessoas

que por algum motivo alcançaram lugar

de desataque por seus feitos.

Quando se trata de celebridades,

do mundo do cinema, da moda, da música,

da literatura, das artes enfim,

ou da política, da economia, da tecnologia,

do esporte, de descobertas

ou de premiados em diferentes áreas,

ou ainda pela religião,

nossa, aqui às vezes até se dobra

a Volta do Uvá,

e até à guerra se vai;

pois o fato concreto e objetivo

é que nesses casos quase sempre

sobra uma lembrança que

não raras vezes é levada

a altares celebrativos.

 

Saindo do coletivo

e restringindo o olhar com a lente fechada

que só pega o pessoal,

o comum – acabem tendo seus respeitos,

suas perdas, suas admirações

e suas saudades,

quando um ente das suas relações dá adeus

à vida de carne e osso,

de sangue e fezes,

de pelos, cabelos e unhas,

de tempos em que se

é bonito, feio, dá pro gasto ou um gato.

Quando qualquer um considerado

no coletivo,

um… qualquer,

como disse,

um comum – sempre haverá alguém

a lhe derramar lágrimas,

render homenagens e deixar brotar comentários,

muito realistas e verdadeiros

de quem lhe conheceu mais que a casca,

as entranhas na euforia ou na solidão

 – debruçando-se sobre seus gostos,

jeitos, hábitos,

desgostos, amores,

manias, idiossincrasias,

dores e odores,

alegrias, paixões fraquezas, fortalezas;

enfim, sobre o caráter,

o coração e a alma do considerado

– mesmo se desalmado.  

 

Dito isso,

conclui-se por evidência

porquanto em derradeira instância,

sem direito a embargo infringente;

que sempre estivemos,

ou por algum momento estaremos,

na memória de alguém e com alguma sorte,

 no coração.

 

Mas, me atrevo a identificar

na massa dos despedidos,

entre os eleitos dos corações de todos

e os confinados à atenção de um que outro

na hora da despedida,

que há sim

– no meu modesto entender,

um terceiro tipo de pessoa.

 

São os simples.

Os humildes.

Sábios por DNA,

não se iludem com luzes

nem com o aplauso.

Por que deles não necessitam.

Recolhem-se em si mesmos

– e assistem ao carnaval

da ilusão no qual dançam

e se refestelam,

aparentemente, grande parte

se não a maior parte,

famosos de mérito ou de ocasião,

sem olhos, nem tempo,

nem noção da própria decrepitude

da carne e finitude dos seus dias, d

a efemeridade da vida.

Acabam – pela força

da sua quietude despertando

para o que fato sempre foram;

grandes,

em escala crescente à medida

que o tempo passa.

Não que não fossem reconhecidos

em vida,

mas algo diz que podiam

e deviam ter sido mais.

 

Os simples,

os pouco notados,

os pouco comentados e referidos

carregam uma virtude

que não se pode tocar.

Intangível.

E quieta como a sombra

é extraordinária e espetacularmente

inquietante,

porque quase sempre,

aferimos sua real dimensão

quando deste ser simples

nos apartamos pelo fim da vida

como a conhecemos.

 

Trata-se da singela “descoberta”

que fazemos mais próxima

do tamanho que é,

quando, como disse,

nos separamos.

Refiro-me à impressionante virtude

que pessoas desta pequena,

porém notável galeria de notáveis

encerra em si mesma,

a exercita dia após dia

durante uma vida toda

– que é a ausência de necessidade

de se fazer notar,

a dispensa de reconhecimentos

e aplausos,

porque eles se bastam a si mesmos,

desde que contemplados

na simplicidade e na verdade do seu lar,

junto dos seus.

Deste (lar – família) e de Deus

– é o que necessitam

e a tudo o mais se fazem modestos

expectadores,

sábios que não sofrem

quando não lhes é consultada

a opinião.

Guardam-na para si.

Dizem-na para si.

E riem na quietude do próprio silêncio

e aparente timidez,

quando outros os expiam

acreditando que eles

não sabem nada do que se passa,

só porque economizam no que dizem.

Mas a tudo só observam,

e cuidam como se soubessem

o que está por vir

depois da esquina que não se vê.

 

Tenho para mim

como referência maior desta qualidade

de ser humano,

onde sua alegria maior está posta

na proposição da alegria do outro,

o meu querido pai Alberto Mathias Ody,

e por que não,

na minha querida irmã,

Maria Ceci Ody

– ambos com fotografias de personalidade muito parecidas

e dos quais tive que um dia

me separar pela naturalidade

da vida ou por  destinos já traçados.

 Nas minhas lembranças,

não obstante,

quietamente ambos vivem como se,

para mim vivos estivessem,

guardadas as relações

em seus devidos lugares.

 

Pois, neste sábado,

às 16 horas na Catedral São José

foi rezada missa de 7º dia em memória

de Edison Luiz Cervi.

Um simples.

Um grande.

Um sábio.

Um quieto e reservado como só

os simples, sábios, generosos e verdadeiramente grandes

– sabem ser e são.

Despediu-se aos 83 anos

 – dez a mais que meu pai.

 

Recorro a Osmar Tonin

com sua anuência: “parabéns a esta família por ter

um grande Arquiteto do amor

para todos Erechinenses”.

Olha só.

Que definição.

Que objetividade.

Que síntese.

Feliz foi o Osmar ao referir

o “Seu Edison”

como um arquiteto do amor.

Quem tem pendurado nas paredes

de casa ou da empresa

um galardão deste naipe!?

Boa – Osmar!

 

 

Recorro também a Aguinaldo Rehfeld

e igualmente

com sua anuência recupero

sua postagem no facebook: “Incontáveis

noites jogando escova

e comendo uma boa massa com codorna

e tomando um vinho branco trazido da Embrapa de Bento,

na sede social que era nos fundos

do estoque da empresa na Germano Hoffman.

Talvez por ser Gremista tão fanático

quanto eu,

nos tornamos amigos

desde aquela época,

apesar da diferença de idade…”.

Salta aos olhos a lisura e a limpidez

de uma amizade que se despe

da função na sociedade

e de cargo em instituição.

“Escova, massa, codorna,

vinho, gremismo, amizade!”. Tags…

de uma declaração de escol

quando o assunto é identificação

de amizade, por afinidade

e espontaneidade. Boa – Aguinaldo.

 

 

Posso trazer ainda aqui

a fala mansa,

sabidamente brotada do fundo do coração,

do genro Antonio Dexheimer,

ao lembrar que o “Seu Edison”,

foi um “desarmador,

um desativador de minas”.  

E quem é da caserna,

 ou nem precisa sê-lo,

sabe que minas são “plantadas”

com o objetivo de impedir

ou atrasar o avanço do inimigo,

atrasar o avanço da guerra

e da morte,

recusando-se a um enfrentamento mais encarniçado.

E por evidente que a fala de Dexheimer

sobre o sogro,

ali a dois metros morto,

tinha o condão de exaltar as virtudes

de alguém cujos propósitos,

com o perdão da redundância,

não propunham salvaguardar

os próprios ossos,

mas invariavelmente

sempre favorecer

a instalação de um clima de paz,

de cordialidade,

de harmonia,

desarmando espíritos

antes que deixassem cair da boca

alguma ofensa mal posta,

para logo ali no outro minuto,

arrepender-se,

quando já não mais era possível

invocar o arrependimento.

 

Neste mundo que já pisa

com os dois pés no século 21,

onde a banalização da violência

se espalha como um vírus nojento,

letal e grotescamente agressivo,

levando pessoas a matarem outras

sem qualquer sentimento ou ressentimento

– como se,

de fato,

vivêssemos em tempos de guerra

onde tais excreções são “aceitas”

 como “normais”;

é sim de lamentar quando pessoas

que conhecemos por convívio de anos e anos,

com as credenciais mais altas

que elevam os modestos e os simples

ao panteão que abriga

os eternamente agradecidos

pelo empreendimento de ações pró-ativas,

embaladas sob os hinos do silêncio

e da discrição,

pois é sim momento

de reflexão e de lamento

pela forçosa separação.

 

Não por obra do acaso

que metade das pessoas que foram

se despedir do “Seu Edison”

eram ex- funcionários das Casas Alegretti,

empresa

onde ele entrou como funcionário,

dividindo-se com as tarefas

em uma agência bancária.

Em 2 de dezembro de 1962

comprou a loja

e depois dividiu com os sócios (Laudir, Oldir e Zancanaro)

gerando ali uma casa de comércio,

proporcionando empregos por décadas

a fio em 12 lojas que se esparramaram

pelo Rio Grande e saltaram

o rio Uruguai ficando raízes também

em Concórdia/SC.

 Ali nascia a Cervi & Cia Ltda

– uma espécie de patrimônio lojista

de Campo Pequeno.

Meu primeiro Vulcabrás

na década de 60 veio à prestação

das Alegretti.

 

De outra sorte,

penso que recolhi um conforto

e um orgulho a mais para a esposa

de “Seu Edison”,

a senhora Clari,

seus irmãos,

os filhos,

genros

e netos.

Ela vem do senhor

Francisco Alves Correa,

o Chiquito do grupo

Chiquito & Bordoneio: “O “Seu Edison

foi nossa segurança

quando chegamos em Erechim.

Não tínhamos crédito nenhum

para entrar em uma emissora de rádio”.

Referia-se a ele

e ao irmão Gildinho

de “Os Monarcas”.

E prossegue: “Tivemos a felicidade

de ter o apoio de uma empresa

como as Alegretti,

e de uma pessoa como o ‘Seu Edson’.

Naquele tempo a gente

 ia a pé com a gaita nas costas

até a rádio Erechim.

Isso durou uns três anos.

Ficamos no ar 18 anos.

E o ‘Seu Edson’ nos dando suporte.

A gente fala sempre disso”.

 

Gildinho e Chiquito,

vindos de Soledade,

apresentaram um programa

ao vivo na rádio Erechim

no auditório

Adeudato Araújo Vianna

comandado pelo

incomparável Jovino Alves Martins.

O programa se chamava

“Assim canta o Rio Grande”

e ia ao ar das 14h às 14h30min de segundas

à sextas-feiras.

Era 1968.

Chiquito conta uma passagem divertida

e que o emocionou

enquanto relatava por telefone.

“Naquele tempo fui um dia na Imcosul

comprar um gravador.

Queria gravar as músicas

para tirar na gaita.

Aí a moça me pediu

qual era minha profissão.

 Eu fiquei assim,

e  disse que era músico.

A moça então retrucou e disse: não…

eu quero saber o que o senhor faz,

no que o senhor trabalha.

Eu fiquei meio perdido.

Então ela disse que eu tinha

que ter um avalista.

Ligamos pras Alegretti

e falamos com o ‘Seu Edison’.

A moça explicou… ó… aqui tem…

e do outro lado o ‘Seu Edson’

respondeu: Para esses aí

a senhora pode vender a loja!”,

e aí Chiquito

interrompeu o relato que me fazia,

com um nó na garganta,

e retomou. “A moça

então disse: vocês tão bem

com o Seu Edson hein!

 Até hoje eu me emociono.

Olha… o Seu Edson para nós

foi tudo”,

completou depois de lamentar

não estar na cidade domingo passado.

Perguntei se não pensam

em fazer uma música para quem os tanto incentivou

e o Chiquito – “bá…

está aí uma boa sugestão!’.

Tentei contato com Gildinho,

mas não consegui.

Sua esposa Santa – também reconheceu

a importância do “Seu Edison”

na carreira do marido.

  

Se alguém considerar exagero

 o que aqui se escreve,

emendo por minha conta 

que me faz um grande bem

à consciência e à alma,

escrever sobre os aparentemente menos

ou nada aplaudidos,

sobre os menos adeptos a holofotes

e sessões de honrarias (nada que desabone

aos lembrados).

Faço-o porque assim quero

e sentindo-me de certa forma

confortado,

porque mudamente agradecido

ao meu pai Alberto,

que me proporcionou

sabe-se lá com que sacrifício,

estudar e trabalhar onde cheguei

– o que me orgulha e tenho certeza,

esteja ele onde estiver,

também assim confortado está.

Logo – o que aqui se deita

não é só sobre o “Seu Edison”,

mas o é em principal,

pois o foco é a modéstia,

a inteligência

e a sabedoria protegida dos fogos,

 brindes e de homenagens

que por vezes confrontam-se com

as virtudes mais altas

desses seres que sofrem quieto,

operam quieto,

empreendem quieto,

lutam,

desdobram-se,

crescem e sobem quieto,

gritando silenciosamente

sua discrição.

 

Não verei mais “Seu Edison”

empurrando um carrinho de compras

no espaço de alimentação

do Máster Sonda.

Não terei mais a saudação respeitosa

e singela, sem necessidade

de estardalhaços

comum às pessoas inundadas de um amor

que contempla na plenitude

a conceituação do termo.

“Seu Edison”, como se fosse

um idoso japonês

– com sua pressa sem pressa,

com seu passo curto,

mas firme,

com sua discrição que

aparentemente,

desrespeita o termo

porquanto desperta,

atrai e conquista,

se foi.

 

Assim como não tenho mais

a beleza nem

a personalidade obstinada

dos que sabem o que querem,

e não tem tempo a perder,

da minha irmã Ceci.

Não tenho mais o sorriso humilde,

mas sem preço de meu pai,

ferido e injustamente

maltratado pelo Parkinson sem-fim.

Sorria diante de uma estrepolia comezinha

de um de seus netos,

levando seus olhos brilharem,

embebidos pela dor e limitações.

 

Penso que pessoas

como as aqui citadas,

se não vieram para construir

grandes obras

alcançadas pelo dedo,

pelas mãos ou pelo olhar,

por aqui estão ou passaram,

para, com seu exemplo,

deixar uma lição a respeito

da qual não nos detemos

como devíamos.

Ela nos fala,

nos mostra e nos prova,

o quão nos desvirtuamos

ou nos divorciamos,

diariamente,

por anos a fio

e não raramente por uma vida toda,

 daquilo de fato interessa,

 importa e fica.

Ser simples como uma árvore

que aceita o lugar

onde está

– afeiçoa-se ao ambiente e a

ele se molda.

Convive com o sol e a chuva,

com o frio e o calor.

Com os animais e

as outras árvores,

independente da espécie.

Embala-se ao vento e às vezes

suspira falando com a terra.

Tudo sem agressões ou empulhações.

Uma relação natural

e verdadeira.

Sem disputas

– porque no fechamento da vida

ninguém levará nada consigo.

Seu tesouro é aquilo que deixar.

Como uma árvore em aparente solidão,

mas integrada ao coletivo,

em harmonia que a tudo assiste,

enquanto,

gratuitamente,

sua sombra e frutos providencia

e oferece a vida toda.

Quando se vai – folhas, tronco e raízes

lhe roubam.

Até com os homens

dispõe a dividir-se em parceria.

 

Como seria oportuno,

se essa intrigante simplicidade,

fosse, um dia mais vividamente

reconhecida e retribuída

a quem a pratica sem nada pedir de volta.

Mas isso é que os comuns descobrem,

quase sempre quando a noite do fim

aparente vem se fazendo.

Eles, os simples,

apenas expiam e,

não tenho dúvidas,

com pena,

com dó no coração.

Não compreendem

por que

não os entendemos.

Deviam ser mais ouvidos,

muito mais considerados,

os simples – porta vozes do silêncio.

 

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