a rádio web da cidade

AO VIVO
Baixe já seu app
PUBLICIDADE

Salto Alto

Publicidade

Jovem inova e abre bar temático em Erechim

Midiely Pereira, abriu a Base 42 em Erechim com o intuito de se tornar a segunda casa de muitas pessoas, e abrir um leque de opções para um público que geralmente não é chegado em baladas e finais de semana de agitação

Por: Isadora Sartor
Fotos: Isadora Sartor
IMG_20160322_190458

Machismo. Machismo por parte dos homens e machismo por parte das mulheres. A pergunta em si é, qual fere mais? Recentemente, a jovem de 25 anos, Midiely Pereira, resolveu seguir seus sonhos e ambições, quebrar paradigmas e abrir um bar temático em Erechim. Sim, é um bar comandado por uma mulher jovem, e isso ainda parece ser um problema para muita gente. Se voltarmos no tempo, veremos que as mulheres já comandaram coisas muito maiores que um bar, como por exemplo, nações inteiras. Independente se elas foram bem sucedidas ou não durante suas trajetórias, a única diferença daquela época para a de agora, é o machismo que parece ter aumentado. As mulheres de hoje vivem numa geração onde precisam buscar cada vez mais espaço e mostrar que podem sim comandar um negócio que geralmente é comandado por um homem.

Em outubro do ano passado, Midiely graduada em Turismo, pós-graduada em Comunicação Eleitoral e Marketing Político, colocou todas as suas paixões e vontades em um papel e uniu o útil ao agradável: abriu o bar Base 42. Primeiro é preciso entender como o bar é, e qual é seu conceito para depois julgar. Mas infelizmente não foi isso que aconteceu. Desde quando a ideia saiu do papel e se tornou algo concreto, mesmo com apoio total de seus familiares e amigos, Midiely vem escutando coisas que nos fazem crer que qualquer negócio gerenciado por uma mulher que não seja uma loja, uma boutique, um salão de beleza ou um consultório, é uma ‘zona de meretrício’. A coisa toda tomou proporções maiores devido ao local que foi escolhido para ser instalado e por ser todo pintado de preto.IMG_20160322_190434

Base 42, surgiu em Erechim com o intuito de se tornar a segunda casa de muitas pessoas, e abrir um leque de opções para um público que geralmente não é chegado em baladas e finais de semana de agitação. De acordo com Midiely, a paixão pelo mundo das histórias em quadrinhos (HQ’s), filmes e séries, além da gastronomia, fez com que a jovem erechinense investisse em um local mais reservado, onde pudesse trocar ideias, fazer novos amigos e fugir da agitação dos finais de semana. “Eu queria que o local ficasse com cara de ‘quarto’, onde a pessoa entra e se sinta em casa. Onde ela vai sentar no balcão, nas mesas ou no sofá, comer e beber a vontade, assistir filmes de todos os gêneros e conhecer gente nova. Quando eu vi no papel que lá tinha filmes, séries, comida e bebida, que eram coisas que eu já fazia para meus amigos, eu fazia as jantas e eu sabia como fazer a cerveja amanteigada que passava no Harry Potter, eu sabia como fazer o Hambúrguer de Siri do Bob Esponja, eu pegava essas referências de filmes e séries e trazia para a cozinha. E porque não apresentar isso para as demais pessoas?”, disse Midiely.

Localizada na Avenida Sete de Setembro, 323, abaixo da Agridoce Livraria & Sebo, Midiely percebeu que muitas pessoas deixavam de sair para comer e beber, pois não sentiam-se enquadrados nas propostas oferecidas pelos bares da cidade, como também deixavam de sair, para ficar em casa assistindo a estreia de um seriado ou filme novo. Então, a jovem com a ajuda do pai, colocou a mão na massa e montou o bar. Pintou as paredes de preto, decorou as mesmas com pôsteres de filmes e personagens marcantes do cinema, pendurou acessórios que remetem ao mundo cinematográfico, instalou um telão onde são passados filmes e episódios de séries, montou um cardápio que traz comidas e bebidas originadas em filmes e o negócio acabou dando tão certo que nos finais de semana a proprietária da Base 42 precisa avisar para clientes que vão chegando, que o local está cheio e não comporta mais ninguém.

IMG_20160322_190519“No dia da inauguração passou 250 pessoas por aqui. Quando eu cheguei do mercado para abrir o bar, tinha fila de espera e eu tremi igual vara verde, porque eu nunca imaginei que fosse ter essa repercussão. Os municípios pequenos tem mania de tachar os locais, e a Base 42 ficou conhecido como a casa dos nerds. E mesmo sendo tachado, o pessoal comprou a ideia, apesar de ser muito novo esse conceito em Erechim, ainda mais quando não se tem música ambiente, como o sertanejo, por exemplo. Hoje, eu tenho clientes que vem em determinado dia porque sabem que naquele dia vou reprisar os filmes do Super-Homem, enquanto outros vem para ver o Batman. Já teve clientes que me pediram para tocar música e eu tive que dizer que não, porque esta não é a proposta da casa”, disse Midiely.

Criar outro universo foi também o que motivou Midiely a procurar um local afastado da ‘beira do asfalto’ para abrir a Base 42. Durante os dias de semana, o bar fecha as portas à meia noite, enquanto na sexta e no sábado fecha à 1h. “Eu percebi que o pessoal já tem um horário próprio, até quem gosta de balada vem e faz o ‘aquecimento’ aqui. Vem, come e bebe e quando chega próximo da 1h, eles vão para a balada. Tenho os drinks dublado (sem álcool) e legendado (com álcool), porque não são todas as pessoas que podem ingerir álcool, sem contar que recebo muito menor de idade, mas eu não queria fechar a casa por vender bebida alcoólica para menor, por isso os drinks dublados”, salientou Midiely. Devido ao Dia Internacional da Mulher, Midiely programou a Semana da Mulher, onde exibiu filmes e séries protagonizados por personagens femininas, e em uma das noite passou no telão principal a animação ‘Frozen’. A quantidade de criança que compareceu com os pais no local, assustou positivamente a todos, pois com isso, Midiely percebeu que a Base 42 se tornou um local que atinge a todos os públicos de todas as idades.

Mesmo com todos esses fatores a favor da Base 42, Midiely conta que o machismo começou ainda quando estava construindo o local, por parte de alguns homens que estavam trabalhando na obra. “Um dia eles chegaram e me perguntaram o que seria ali e eu expliquei que seria um bar temático. Depois que eles entenderam o que era o tal bar temático, me pediram desculpas porque estavam comentando que lá seria uma zona. Aí eu tive que perguntar: vocês já viram zona sem quartos, com dois banheiros, um depósito de bebida e uma cozinha? Depois eles me disseram que estavam comentando que ali seria um ponto de encontro, aonde as pessoas vem e combinam o programa com as garotas. Aí eu percebi que tudo o que você faz tem que ser à mostra, porque se for escondido você ta fazendo algo proibido”, comentou. IMG_20160322_190759

A gota d’água para Midiely foi no Dia Internacional da Mulher, quando as pessoas que a parabenizavam pelo dia, eram as mesmas que até então estavam discriminando seu novo negócio, e principalmente quando a questionavam sobre o andamento da “bodega”. No facebook, Midiely desabafou sobre o que estava passando:

(…)uma coisa que me surpreendeu nesse breve caminho foi o machismo que tive que enfrentar e ainda tenho. O raciocínio era mais ou menos assim:
Um bar dirigido por uma mulher = Zona
Por uma mulher jovem = Zona
Bar temático = nome bonito pra Zona
Em local mais reservado, comparado com os “padrões” de Erechim = Zona
Pintado de preto = Zona
Um astronauta na fachada = Zona até para E.T
E por aí vai. Eu poderia passar o dia citando as inúmeras vezes em que isso ocorreu. Mas uma das coisas que mais me surpreendeu foi que muitas das vezes o machismo não vinha dos homens, mas sim das próprias mulheres(…)

Para Midiely, o machismo praticado pelas mulheres machuca muito mais do que aquele praticado pelo homem. A jovem relata também que recebe ajuda do namorado quando o mesmo não tem aula, e que as pessoas muitas vezes ao deixar o local, o parabenizavam pela abertura do bar. “Quando diziam isso, ele agradecia, mas logo explicava que não era ele. Aí perguntavam: quem é o dono então? E ele apontava para mim. Daí as pessoas insistiam: mas então é de vocês dois? E ele tinha que responder: não, é dela“, destacou Midiely.

Ao final de seu post, Midiely deixou um recado tanto para os homens como para as mulheres:

(…)Homens: gentilezas são sempre bem-vindas e a gente gosta de mimo sim! Não é porque abrimos o pote de conservas sozinha ou em algum momento da vida somos mais bem remuneradas que vocês, que não gostamos de café na cama ou que abram a porta do carro uma vez ou outra. Mas não nos subestimem. Nossos braços podem não ser fortes pra carregar o sofá, mas nossos ombros são o suficiente pra carregar as dores do mundo.
Mulheres: a ex do namorado, a vizinha solteira do 5º andar, a colega sarada com mais de 50 que usa vestido curto e a novinha que fez uma tatuagem no cantinho da barriga não são vadias. A de 25 que odeia salto alto, a menina de 11 que prefere o skate e não a chapinha, a que paga R$ 300,00 no lançamento da edição deluxe de Battlefront mas nunca numa bolsa, não são “sapatão”. E se elas forem sim homossexuais, qualquer um que seja seu gosto, mais feminino ou mais masculino, isso não as torna menos mulheres(…)

E concluiu dizendo:

(…)Flores, chocolates e gentilezas sempre serão bem-vindas, mas o respeito pela mesma espécie é a melhor forma de demonstração de carinho.