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Educação

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Vídeo mostra agressões contra crianças entre 1 e 2 anos na escola Vera Sass em Erechim

Pais se mostram indignados quanto ao fato e cobram solução imediata para o caso, que aconteceu ainda em março. A reportagem do jornal Atmosfera ouviu os pais nesta semana e também as organizações envolvidas no caso. Polícia investiga as denúncias e funcionárias agressoras já foram afastadas. Pais se dizem “acabados” psicologicamente

Por: Reportagem Especial - Por Edson Castro e Isadora Guazelli
escola vera

O mês de abril de 2016 jamais sairá da memória de 10 pais que residem em Erechim, norte do Rio Grande do Sul. Quase um mês depois, foi quando eles ficaram sabendo que seus filhos simplesmente eram agredidos por monitoras (professoras) de uma escola pública de educação infantil. O fato que gerou revolta entre os pais, aos poucos vai sendo conhecido também pela comunidade em geral.

A agressão foi flagrada por câmeras instaladas pelo próprio educandário, entre os dias 28 e 29 de março. Apesar da direção da escola ter afastado as duas funcionárias flagradas pelas câmeras logo em seguida, os pais reclamam que ficaram sabendo do fato apenas um mês depois.

“No dia 26 de abril fui chamada para prestar depoimento em uma sindicância da Secretaria de Educação (de Erechim). Fiquei surpresa, quis saber logo do que se tratava, mas me falaram apenas quando cheguei lá. Fomos eu e mais duas mães. Ficamos arrasadas ao descobrir os motivos daquela conversa”, disse esta semana a mãe de uma das crianças agredidas, Geraldine Cristiane Serafim da Silva.

Ela e outro pais, Eliane Grando, Fabiola de Mello, Karoline Ramos,  Rosmari Ana Volinski, Cristian Carvalho e Cristiane Zanco, além dos os casais Joseli Conte Vall e Elto Vall, Franciane Ariele Broges e José Roberto Janesco, expuseram esta semana à reportagem do jornal Atmosfera, o sofrimento que estão passando e o sentimento de impunidade.

O vídeo

O vídeo que mostra as agressões, divulgadas nesta reportagem, tem os rostos dos envolvidos por encobertos, devido a uma questão legal. Mas é possível ver perfeitamente as agressões e maus tratos às crianças.

O vídeo foi disponibilizado pelos pais, com a devida autorização para veiculação.

A entrevista

As informações que seguirão sendo repassadas no texto abaixo, fazem parte de uma entrevista realizada pela reportagem do jornal Atmosfera junto com os pais citados acima. Por isso, as frases entre aspas, são relatos.

Devido a quantidade de frases, o nome dos pais nem sempre será citado após cada fala, mas todos fazem parte da entrevista.

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A descoberta dos fatos

De acordo com os pais, a direção da escola Doutora Vera Beatriz Sass, que fica no bairro Paiol Grande, emitiu um comunicado logo após a gravação das imagens, informando os pais da mudança de professores no monitoramento das crianças.

“A partir de então começaram os boatos em redes sociais sobre possibilidades, mas nós não sabíamos de nada. A escola apenas avisou da mudança, mas não informou o motivo. A gente ficou sem saber o que fazer”, disse um dos pais.

“Havia uma desconfiança. Nossos filhos passaram a ter o mesmo sintoma. Ninguém mais queria ir para a escola, tinham medo das profes, até mesmo de entrar no micro, choravam muito, desesperadamente e simplesmente não queriam ficar com as profes. Nós questionávamos as profes e a direção, mas todos nos informaram que fazia parte do processo de adaptação, já que todos estavam indo à escola pela primeira vez”, disse Eliane Grando.

Todas as crianças agredidas faziam parte da turma do maternal, com idade entre 1 e 2 anos. Segundo os pais, não se sabe ao certo quantas crianças foram maltratadas. “Apenas três pais foram chamados para depor, pais que tiveram seus filhos agredidos. O problema é que todos apresentaram os mesmos sintomas, os mesmos medos. Isso nos leva a crer que mais crianças foram agredidas. Até porque, a nós, nos mostraram apenas uma parte dos vídeos. O intrigante é saber por que não vimos tudo, será que tem coisa ainda pior a ser descoberto por nós, pais?”, questiona Geraldine.

escola vera pais

Registros na Delegacia de Polícia

Ao saberem dos fatos, os pais registraram três boletins de ocorrência na Delegacia de Polícia Civil em Erechim.

Clique aqui para acessar a reportagem que fala sobre o andamento dos fatos na esfera criminal.

“Ficamos apavorados. Queríamos entender o que havia acontecido. Primeiro ficamos sabendo que as funcionárias estavam devidamente afastadas. Mesmo assim registramos boletim de ocorrência por uma questão de segurança e investigação. Isso é crime e tem que ser tratado como tal”, disse Elto.

As agressões

Manchas roxas, foi o primeiro sinal que chamou a atenção dos pais. “Algumas crianças apareceram em casa com manchas roxas nas perninhas e nos bracinhos. Fomos questionar, mas as profes disseram que era normal, que era uma fase onde as crianças se mordem, se batem e se puxam o cabelo”, contou uma das mães.

Outra relatou o que os vídeos acabam comprovando. “As crianças na verdade eram trancadas no banheiro, socadas, muito maltratadas. Chegaram a me dizer que minha filha era ‘mimada’”.

Para alguns pais, há ainda o sentimento de que as crianças não recebiam a devida alimentação. “Fomos conversando entre nós e descobrirmos que praticamente todos chegavam em casa com muita fome”.

Consequências

Segundo os pais, a maior parte das crianças começaram a frequentar a escola Vera Sass em fevereiro. Neste período até o afastamento das funcionárias envolvidas nas agressões, os pais relatam muita dificuldade e consequências graves às crianças.

“Meu filho se tornou agressivo”. “Minha filha não queria mais dormir sozinha, não queria mais entrar no banheiro”. “Minha filha estava começando a falar e parou, só voltou muito tempo depois, teve que recomeçar a aprender a falar”.

“Minha filha não dorme até hoje com a luz apagada”. “Meu filho não queria mais tomar banho, não queria mais deixar trocar a fralda, chegava a me beliscar”. “Meu filho forçava fechar a porta quando era hora de sair de casa e ir para o micro (transporte)”.

São alguns dos relatos dos pais sobre as consequência advindas do sofrimento das crianças que sofreram os maus-tratos na escola Vera Sass.

E as consequência se mantém até os dias de hoje. “Minha filha tem medo de pessoas”. “Temos que dormir com a luz acesa”, contam os pais.

Comoção e sentimento de impunidade

Os pais que conversaram com a reportagem do jornal Atmosfera, sentaram uns ao lado dos outros, em um circulo. No olhar de cada um, o desespero. Ninguém se conforma. Todos se emocionaram ao falar do fato.

Muitos choraram e outros simplesmente nem conseguiam falar. Os olhos cheios de lágrimas estiveram presentes na maior parte do tempo, na demonstração de um sentimento que ainda fere e não há cicatriz para sarar tal dor.

Em tom de desabafo um dos pais falou: “vocês estão sendo a nossa voz para a comunidade, a nossa oportunidade de desabafar, de contar como estamos nos sentindo”.

Para eles, o sentimento maior é de revolta e impunidade. “Já se passaram quase três meses e nada de conclusão deste problema. As funcionárias simplesmente continuam afastadas. Queremos que elas sejam exoneradas. Elas não tem a menor condição de seguir trabalhando com o público”, disse um dos pais.

“São mais de dois meses que eu não durmo, que a gente sofre, não conseguimos nem contar para os parentes, estamos sofrendo demais. A gente tem que ouvir ainda comentários como ‘vocês estão parados, não vão fazer nada?’. É revoltante”, disse uma das mães.

“Minha indignação é de que a gente não sabia interpretar, uma vez que nenhum deles ainda falava, que eles não queriam ir para o colégio simplesmente porque não queriam ser maltratados”, emocionou-se um dos pais.

A mudança

“Não consigo mais confiar na escola, sempre fico com um pé atrás”. “A gente confia desconfiando”. “Confio na atual professora”. Os relatos são variados quando a pergunta é sobre a confiança que os pais tem na escola em que seus filhos estão.

As marcas que as crianças poderão esquecer, os pais jamais esquecerão. “Já nos pediram para não falar sobre isso em casa, evitar de as crianças saberem que sofriam estes maus tratos. Porque eles poderão até vir a esquecer, mas a gente não, eu nunca vou esquecer o que fizeram com meu filho, jamais. Isso está dentro de mim”, contou uma das mães.

Porém, o que ameniza a dor dos pais, é a mudança que a escola teve a partir do afastamento das funcionárias envolvidas. “Nossas crianças são outras, com outros comportamentos. Agora parece estar tudo melhor, as crianças querem ir para a escola”, diz uma mãe. “Ele quer ir para  escola, pega a mochilinha e me arrasta para ir, abraça a profe, quer ficar na escola”, conta outra mãe.

Responsabilidades

Os pais se uniram e entraram com um processo judicial contra o município e as funcionárias identificadas nas imagens, causando maus tratos às crianças. Contrataram uma advogada e buscam punição aos envolvidos.

“Queremos que elas (funcionárias) sejam exoneradas. Elas não tem condição de seguir atuando no serviço público”, diz um dos pais.

Elto vai além. “Todos comentam, ‘eu mataria’, ‘tem que ir para a prisão’. Mas nós não temos o direito de fazer isso e então esperamos que a Justiça faça isso por nós. Que o sofrimento que a gente enfrenta até hoje não seja em vão. Que o que nossos filhos passaram sirva para alertar sobre a investigação em outras escolas e creches, sejam públicas ou particulares”, disse.

Distância do Poder Público

Para os pais, ficou ainda o sentimento de desleixo por parte do Poder Público Municipal. “Nunca nos chamaram para falar sobre este problema. Não há atendimento psicológico aos pais, que sofreram muito após saber deste grave problema”, conta uma das mães.

Pedido a outros pais

“Queremos alertar outros pais que procurem saber, se informar sobre os locais que vão deixar seus filhos. Que ao menor sinal de mudança de comportamento, estejam atentos, questionem a escola. Porque é a vida de nossos filhos, é a educação deles”, comentaram os pais ao final da entrevista à reportagem do jornal Atmosfera, nesta semana.

O que diz a advogada dos pais

“O processo administrativo está em andamento, e eu como procuradora da grande maioria dos pais, obtive cópia integral. Em função de que o processo é sigiloso, a única informação que eu posso passar é de que as indiciadas foram ouvidas, foram ouvidas testemunhas e foram ouvidos alguns pais das crianças que nas imagens estão sendo maltratadas, embora apareçam no vídeo mais duas crianças que claramente estão sendo maltratadas fisicamente e que os pais não foram chamados”, salienta a advogada dos pais, Terezinha Grando Cavalcanti.

“O processo já está em fase de finalização. Foi prorrogada por 30 dias a suspensão das professoras. O processo disciplinar também foi prorrogado por mais 30 dias em função de toda a papelada de documentação que precisa ser analisada e a Comissão de Sindicância está trabalhando nisso. Este processo está regular, bem montado, com ampla defesa e tudo o que a lei determina que as indiciadas tenham. Agora nós iremos aguardar o desenrolar de todo o história tem e quando da conclusão me foi deferido. A parte de processo civil está apenas aguardando que conclua os tramites legais na delegacia, muito em função dos Boletins de Ocorrência que os pais das crianças fizeram. Diante disso, eu como advogada dos pais irei acompanhar todo o desenrolar da história. Os fatos são graves e as imagens são provas de maus-tratos deliberadas”, completa Terezinha.

A palavra do advogado de defesa

O jornal Atmosfera conseguiu contato com o advogado das duas funcionárias que foram afastadas da escola, Edson Ayres Torres. No entanto, ele não pode atender a tempo de relatar informações sobre o caso nesta reportagem.

Porém, ficou agendada uma entrevista com o advogado ainda para esta quinta-feira.

O que diz a prefeitura

A prefeitura de Erechim foi procurada pela reportagem do jornal Atmosfera, para se manifestar sobre o caso. A Secretaria de Comunicação ficou de enviar uma nota oficial, até o final desta tarde, porém não havia chegado até a publicação desta reportagem.