divdiv
PUBLICIDADE

Artigos

Publicidade

#Artigo – Meu encontro com os Vulcões

A História, minha eterna “Mestre”, ensina que, nunca, em nenhum dos tempos, no Universo conhecido houve silêncio absoluto. Tampouco no Éden, já que lá residia Eva...

Por: Neusa Cidade Garcez
vulcoes

A História, minha eterna “Mestre”, ensina que, nunca, em nenhum dos tempos, no Universo conhecido houve silêncio absoluto. Tampouco no Éden, já que lá residia Eva…

Nosso pequeno planeta, em especial, é barulhento. Rosna, sacode as entranhas em constante mau humor. Vez ou outra como se estivesse em dolorosas cólicas, expele seu biles asfixiante.

Um vulcão é belo e amedrontador.

Talvez, por ter signo de fogo, minha curiosidade pelos vulcões sempre foi marcante em estudos, pesquisas, leituras. Meu encontro com eles esteve agendado desde a adolescência.

Trancorriam as aulas de História da América. Espanhola e o foco era a extraordinária civilização Asteca, quando apareceu em pauta um mínimo da geografia do México, onde se sobressaíam seus inúmeros vulcões como o Itzacoatliatl e o Popocateptl. Pensava eu: um desses irei encontrar. E, num repente, lá estava diante do ruidoso Popocateptl, numa época em que reuni 3 programas em 1 para maravilhar-me com o México “lindo e querido”.

Em outro tempo longínquo, fomos, minha irmã e eu conhecer o Equador e a família Zambrano Pesantés, que tudo indicava seria a minha nova família. Naquela viagem, meu maior desejo como professora de História, era caminhar pelas ruínas de Ingapírca deixadas pelos incas em seu curto tempo de dominação no território de Ruminahue, último rei e defensor contra os espanhóis. Realizei essa aspiração.

Mas, sem agendar ou preparar o coração, tive surpreendentes encontros e falta de fôlego com os inúmeros vulcões presentes no país andino. Da janela de nosso hotel em Quito, observávamos o fumegar do Pechincha, sempre mostrando que a qualquer hora cuspiria seu azedume.

Na segunda ocasião que nos hospedamos no mesmo hotel, só o avistávamos ao sair para a rua. Mas ele estava lá, sempre perigoso.

Após alguns dias conhecendo futuros cunhados e sobrinhos, viajamos para Riobamba onde resídiam meus futuros quase sogros, cunhados e um sem número de parentes que nos esperavam e nos empanturravam de comidas e nos afogavam em carinhos.

A surpresiva primeira viagem para Riobamba se fazia pela Avenida dos Vulcões. Nevados. Altos. Lindos.

A residência dos Zambrano, casa estilo colonial, possuia na sala de jantar um lugar à mesa onde D. José, um cavalheiro de refinados modos, dizia: “Este lugar é da Srta Neusita. Ninguém deve ocupá-lo”.

Sem saber direito o que fazer, eu olhava para a enorme janela, por onde entrava a imagem dos Ilinazas, dois enormes vulcões que pareciam logo ali no quintal.

No entanto a mais linda emoção aconteceu, na tarde em que Doña Terezita, minha sempre lembrada ex-sogra me levou para a varanda e tirou de seu dedo um anel, que segundo ela lhe fora dado pelo esposo em momento muito especial de suas vidas, e colocou em meu dedo. As lágrimas quase me impediram de ver, “logo ali” o majestoso Chimborazo que testemunhava aquele momento único.

O Chimborazo, o “Colosso dos Andes” está inativo. Aconchegado em toneladas de neve, espera sua hora…

Fomos algumas vezes a Otavalo para comprar seus magníficos artesanatos. Na primeira vez, conseguimos o único ônibus “decente” dos passeios. Os demais, velhos, cheios de galinhas, porcos, tambores com gasolina; as cholas com suas volumosas “polleras” sentavam sobre as pessoas e pediam para “se desocupar”, atrasando assim a viagem. Sentíamos saudades dos ônibus da Unesul.

Sentamos, por milagre de Quetzacoatl, bem na frente e enquanto o ônibus andava, víamos desfilar ao longe os inúmeros e sempre nevados vulcões. Em um instante, para sempre lembrado, começou a crescer, bem no meio da estrada, um vulcão. E, foi crescendo e crescendo, parecia que ia interromper a passagem do ônibus. Era o Cayambe, com o que eu não havia marcado encontro e nem sabia de seu existir! Emoção!

De Riobamba fomos também até Baños em um fim de semana. Sentamos por um tempo no sopé  de uma altíssima montanha que não me chamou a atenção.

Minha cunhada Yolanda nos informou ser aquele monte o perigosíssimo vulcão Tungurahua. Anos depois, ele entrou em erupção e destruiu totalmente a cidade balneário de Baños, roubando de mim as lembraças boas daquele lugar.

Um outro encontro muito sonhado ocorreu no fumegante Parnaso, na Grécia. A História afirma que no local, a pitonisa Sybila recebia seus poderes.  Naquela vez Sybila me guiou, pelas ruínas do grandioso templo de Apolo.

A História igualmente me fez almejar encontrar o Vesúvio, queria então, desaforá-lo por sua fúria terrível contra Pompeia e Herculano. Na minha primeira visita à Itália, o fiz sozinha. O fato me tirou oportunidade de fotos minhas com as célebres ruínas. Eu olhava e olhava para o que me parecia um insignificante monte logo ali. Era o Vesúvio. Mas me interessei mais pelos terríveis calcos e  senti angústia ao imaginar o momento derradeiro em que a onda piroclástica varreu as duas cidades. Fotos minhas foram gentileza de desconhecidos turistas.

Há 3 anos voltamos, minha irmã  e eu, a percorrer as ruelas calcinadas de Pompéia. Um violento temporal cobriu de névoa o maldoso Vesúvio. Mas, os restos da cidade romana nos deram conta do que foi o embate natureza-humanos.

O pensamento que mais nos chega após esses encontros com a força bruta e incontrolável é: graças, não temos vulcões!!

Porém, uma realidade estarrecedora e cruel nos desperta com irrefutáveis argumentos. Estamos ao meio de centenas de vulcões que explodem uma, duas vezes ao dia com sanha furibunda na forma de mentiras, enganações, com a fel nauseabundo de seus engôdos, dilapidando ideais, esperanças. Os meios de comunicação a cada tempo, quebram nossa força moral com as catapultas de fogo que atiram em nosso coração mostrando os dejetos da imoralidade e da desfasatez de grupos que com suas  ações espurias nos roubam o futuro.

Vulcões que queimam a dignidade e a vontade de viver de um povo que é incinerado por seus gases infames,  fétidos, ávidos de poder. Há vulcões no Brasil e eu não quero encontrar nenhum, mas estou no meio deles, desorientada, desencantada não sabendo em que e em quem acreditar. Os vulcões geológicos são mais confiáveis.

Neusa Cidade Garcez

Historiógrafa – Pesquisadora

URI

Membro da Academia Erechinense de Letras

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
Publicidade