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Alex Sandro de Oliveira

Direito Digital e Novas Tecnologias

FaceApp: problema ou sintoma digital?

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Nos últimos dias temos presenciado o retorno do famoso aplicativo FaceApp que possibilita aos seus usuários a criação da sua versão do “sexo oposto”. Vocês devem lembrar que este mesmo aplicativo foi responsável por uma outra febre no passado quando possibilitava a criação da versão envelhecida do usuário.

Diversos são os debates acerca do assunto, sendo que alguns afirmam que as pessoas deveriam excluir imediatamente suas contas ou sequer iniciar o seu uso, enquanto outros afirmam que a empresa realizou diversos ajustes que deram maior segurança ao aplicativo. Porém, um ponto é unânime entre os profissionais que atuam com proteção de dados: o usuário deve ter assegurado o direito a transparência no tocante as informações que envolvem o tratamento de seus dados.

É importante destacarmos que o FaceApp, embora possua termos vagos em sua política de privacidade (atualizada recentemente, diga-se de passagem) não é plausível utilizá-lo como bode expiatório para atacar um problema que é muito mais complexo: o desinteresse das pessoas no tocante ao controle do uso de seus dados.

Afinal, você tem o hábito de ler as políticas de privacidade das redes sociais ou aplicativos que utiliza? Além disso, qual a efetividade de se excluir um aplicativo, mas escancarar a vida privada em redes sociais?

São indiscutíveis os riscos decorrentes do uso do FaceApp, sendo que as imagens capturadas e armazenadas podem eventualmente serem utilizadas para fomentar as deepfake, ou seja técnicas de síntese de imagens humanas para a criação de imagens falsas com o auxílio da inteligência artificial. Lembre-se: sua imagem é um dado biométrico e toda cautela é necessária.

Por outro lado, as grandes redes sociais como Facebook, Twitter e Instagram, também coletam inúmeras informações sobre nossas ações no mundo digital, as quais podem ser ainda mais invasivas. Ou será que todos já esqueceram do escândalo[1] protagonizado pelo Facebook e a Cambridge Analytica em 2018?

Não é objetivo desta coluna defender ou incentivar o uso do FaceApp ou sugerir o não uso de redes sociais, mas sim provocar a discussão acerca da necessidade de uma educação digital e consequentemente, uma mudança cultural nas pessoas, para que elas tenham compreensão do cenário no qual estão se inserindo e possam assim, assumir conscientemente eventuais riscos decorrentes daquele serviço.

Até poucos anos atrás vivíamos e utilizávamos máquinas de escrever. Repentinamente, elas foram substituídas por computadores e em seguida conectados a uma grande rede mundial, mas jamais nos ensinaram ou disseram como deveríamos nos comportar diante deste novo cenário tecnológico.

Basicamente mudamos apenas nossas ações para a versão digital, mas continuamos tendo hábitos e mentalidades analógicas, sendo que permanecemos agindo de forma inconsequente como se em uma máquina de escrever estivéssemos, sem nos preocuparmos com as consequências que cada tecla pressionada trará para nossas vidas offline.

É importante registrarmos que os riscos no uso de aplicativos ou redes sociais sempre existirão, sendo que dentre aqueles citados nesta coluna, poder-se-ia criar uma relação contendo diversos riscos envolvidos. Porém, o que devemos buscar é incentivar que as pessoas façam uso dos serviços de forma consciente, ou seja, saibam quais informações serão entregues para as empresas e quais serão os riscos envolvidos nesta ação.

Afinal de contas, podemos verificar que o FaceApp não é o problema em si, mas sim a materialização dos sintomas do verdadeiro problema: Conscientização Digital.

Que tal combatermos o real problema juntos? Deixo um desafio para você caro leitor. Quando desejar utilizar algum serviço digital, siga os seguintes passos:

  1. Se informe dos termos de uso e políticas de privacidade da empresa;
  2. Identifique quais dados serão coletados e como eles serão utilizados pela empresa;
  3. Faça uma ponderação entre os riscos existentes, a utilidade do serviço e a confiabilidade da empresa;
  4. Decida.

Com isso, independente da decisão adotada, você estará assumindo o controle do uso de seus dados pessoais e decidindo de forma consciente e com base no cenário que pretende se inserir. Somente desta forma poderemos combater o verdadeiro problema digital e não apenas adotar medidas paliativas para os seus sintomas.

E você? Adota cautela no uso de serviços digitais?

 

[1] Envolveu o uso indevido de dados de milhões de usuários (inclusive brasileiros). Na Netflix existe um excelente documentário chamado “Privacidade Hackeada” que ilustra claramente este episódio. Após assisti-lo sua visão sobre redes sociais e exposição digital sofrerá mudanças significativas.

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