a rádio web da cidade

AO VIVO
Baixe já seu app
PUBLICIDADE

Feliciano Tavares Monteiro

Alguém soltou a Boitatá ?

I

Oh Pátria Mãe!, lesada:

– no Centro caem viadutos,

diante de gente cansada,

e olvidam-se conselhos,

dos velhos positivistas,

Muitos por aqui choram…

servos de congressistas.

Enquanto lá pelo Norte

embarcações afundaram

e ao léo ressoa a morte

onde os rios inundaram.

No Sul grande comoção,

pelos guris que se imolaram.

E mais mil carretas de feijão,

lá para o Oeste, se atolaram.

É um fato, construímos isto.

Um lugar onde tudo arde,

como a poção de Mefisto.

E até o Rio ficou covarde

Ajoelha, mudo, ante o Cristo.

Mas a tragédia foi mais longe

desastre nunca é de mais…

 

II

Como não sou um monge,

e vivo próximo a um cais,

poderia dizer…Eu passo!

ou nada tenho com isto!

Mas é algo que não faço

Pois se penso, eu insisto.

Santa Maria deu-me régua

e além de potente canudo

deu-me égua, bom passo.

Sem querer ser um papudo,

muito devo ao bom Rincão.

Imploremos ao Alto juiz:

– que não, e mil vezes não,

se repita o caos da Kiss.

Pois a dor dói, persevera

como claro risco de giz…

algo que ninguém supera.

Tão triste acidente, infeliz…

parecia ser uma Quimera

em macabra  empreitada.

Noite vã tal uma pantera

cobrou impostos ardentes…

III

Levou a cobra (*), na sua venta,

a nata daquela boa gente…

mais de duzentos e quarenta

calcinados…mui de repente…

A ânsia é dor que arrebenta

numa só noite foram calados

vários editoriais de profetas…

sem direito aos seus comícios

Eram cinco potenciais poetas

– perdida u’a mão de Vinicius,

além de outra mão de atletas…

Dança macabra, mil suplícios

cárcere em fogo,  em tontura:

– gigantes, bons titãs, rapazes

e as meninas ? Uma pintura!

Eram da cidade os seus ases,

ala jovem de ciência & cultura.

Riam, alegrando os ambientes.

Mas a Boitatá (*) e a sua chama

tornou os logradouros carentes.

Horror – além KKK d’ Alabama!

Dor para um Clã de parentes!

 

IV

Moro bem longe, pela Bahia,

mas seria uma falta de tato,

além de enorme descortesia,

“como quem cospe no prato”,

ou  xinga a mãe na sacristia,

obscurecer tão tristonho fato…

Também fui jovem e eu juro!

corri na Boca em vinda e ida…

Na cidade eu me fiz maduro…

pois a urbe fornecia guarida

e  uma enorme hospitalidade.

nunca me senti um interno…

Vento frio n’ Acampamento,

significava …aquele inverno!

Ela foi muito gentil, para mim

lembro amigos, muitas famílias

o policial Cruz, Rosos /Bisognin,

paraguaios, serestas e cartilhas.

Mas tudo já mudou:- que jeito?

E cabe só solidariedade à vida,

uma continua constrição no peito

pra evitar mais males, dar guarida.

.

V

 Maus costumes surgem pelos ares.

abundam direitos, tal perfume e gel.

Nunca mais plantaram em hectares

os grãos de deveres, só carrossel….

Adiado, urdido o fim d’adolescência.

Sem serviço militar, quepe, bivaques.

Compram-se “remédios”, sem ciência,

sem dar um basta ao pó, aos crackes…

Restou, porém a fé ideal, um novo clã…

com a Camaradagem Javali de um time,

lembrando agora do filho, irmão, irmã!

Pois claro, a cidade doída se exprime…

Nunca sonhei e juro, em alguma data,

debruçar-me sobre o hediondo crime.

Pois já borraram mil páginas em ata

e tudo se fez, se faz, pra apagar pistas…

E em vez de fiscalizar a torto, a direito.

tentam poupar dos doutos… suas vistas.

para ampliar a dor, ou prazo do mal feito.

Fazem pouco mais de quarenta natais

que eu deixei a “Boca”, suas montanhas…

Boas memórias que não esqueço mais.

 

VI

Antes de ficar mais lento, grisalho,

apartei o olhar de distantes quintais

e fui vivendo, sem temer espantalho…

Para o bem de corpo, alma e crâneo,

labutando desta ou daquela maneira…

O tempo passou, tal um instantâneo,

até para a Nossa Mãe Medianeira,

pedi arrobas de vênias, compaixão.

Pois logo a sorte, cigana, zombeteira,

mostrou linhas, mais sujas que carvão

reunidas como as reses, na coxilha,

letras que  brilhavam como um tição,

com um nome igual ao de minha filha.

mas foi só uma brutal coincidência…

Dei graças, a filha vive, que sorte!

Parei, orei por ancestrais, toda família…

Senti, na catástrofe, um peso mortal:

– “pois nem um homem é uma ilha”.

Sempre deve nos proteger do mal,

além da Providência, a grande pilha

de normas, procedimentos-padrão

dignas de um vivente, farroupilha.

 

VII

Foi comprovada uma indigência

em toda a fiscalização predial.

O nosso social está obstruído

é muito pior que a Boate Kiss.

Falando bem baixo, sem ruído,

aquilo que o governo nunca diz:

– Governo prioriza Defensorias,

pois o parlamento nunca quis

fomentar  para as engenharias,

um lugar para atender o povo:

– Balcão de Engenharia Pública.

pra tirar  dúvidas, é o moderno.

Em uma proclamada República

o desleixo é fatal e é o inferno!

Ainda pululam mil Defensores

de um estilo Luso, ou de muito antes –

e não temos nós ainda, senhores,

medidas concretas e edificantes

para antecipar danos, evitar dores.

Seremos, clamando, navegantes,

argonautas conservando o norte.

A saudade ganhou fiel relicário…

 

VIII

 Conta com o humano suporte,

pois o destino é condor corsário,

tudo reúne, amalgama o pranto…

Doravante só haverá um lado:

– cheio de aconchego e acalanto…

E se sentires nestas dores alheias

como de um canto triste, soluçante,

ouvirás cantar mochos nas ameias

nas torres das  igrejas, todo instante.

Adormeceu a aranha em suas teias,

como em uma imagem de Pancetti.

À Pátria mestiça, em mil sotaques,

na esperança que sempre se repete

dedico-lhe as luzes do amanhecer…

Em silêncio reverencio os craques,

seus parentes, amigos e os demais:

– aquele mais próximo e os mais fãs,

– aos amigos, que não se veem mais,

– elas, mais afastadas, amadas, irmãs.

Por nós passaram, rumo ao infinito,

pra habitar o Porto Alado dos Casais

– e “até pareceu cousa mandada”

 IX

 Cinzas e poeiras, o vento assoprou

adeus boate e noite mal-assombrada.

A Boca da cobra, também nos levou:

– barman, músicos, garçons, agito.

Toda mágoa já esteve represada

destacou-se da luz, que agora fito,

como reflexo da água encantada.

E o nosso futuro, muito mais bonito.

destronará a Boiguaçu (*) levada…

Um dia as nova gentes, crias sadias

brincarão aqui, com suas pandorgas

E o sol renascerá, para novos dias,

– e olhem que não possuo outorgas –

dos sítios lá por de trás dos montes…
Sim ainda há temor, há um desleixo

mas água correrá de várias fontes…

Fará rolar todo pau e todo seixo,

pois a vontade coletiva vira a ação.

No duro espaço entre o bem e mal

se contrapõem a salutar motivação.

E existe a via supra-governamental,

a heroica, crível, Soberania Popular.

X

 E a tragédia serviu como uma forja

armando nas praças, em cada lar,

a corrente tenaz contra esta corja.

Uma resistência dolorosamente sã.

Ultrapassado foi o mal estar servil

em uma nação que nunca foi anã…

Cidadãos indignados em uma mix

conseguem, além família, um baita clã.

combatem a boitatá, criando a fênix (**).

E foi ressurgindo, aos poucos a cidade

em várias redes sociais, não é mistério,

ainda presta-se todo dia…solidariedade

às famílias, aos que estão no cemitério.

A vida é desde o berço apenas intervalo

que se encerra quando vamos repousar

e então paramos, sem escutar o galo…

Mas confiamos menos nos dedicados,

Damos muito mais crédito aos boçais.

Em Roma, 64 D.C., Nero (***) pôs fogo,

e nunca culpou a si, acusou os demais.

Mudam os atores, permanece o jogo!

XI

Alguns só vivem sob um palanque

tentando arranjar comida, donativos

Ignoram, ou sabem como é estanque,

a crença na perfídia dos mais vivos…

O mesmo que hoje aplaude e apupa

amanhã muda, com o sabor do vento,

jogará o orador bem longe da garupa

esquecendo amiga, amigo ao relento…

Diligências, sem federalização, vagam,

como todas sementes sem a luz do sol.

plenas como canais que não se dragam

em busca obscura, lá longe do arrebol.

Presumo que a vida não vale mil réis

longe de uma ação científica adequada.

E já nos custaram muito mais anéis

esta investigação mal direcionada.

Devemos preservar cordas vocais

e escrevermos o que não foi escrito…

iremos, sim, carecer de memoriais

 

capazes de ampliar em um eterno grito:

– Holocaustos e outra Boate Kiss? Jamais!

O futuro pertence ao povo. Está bem dito!

 

Feliciano Tavares Monteiro- 13 de agosto de 2018 – Salvador- Bahia

 Glossário

 Boitatá – boiguaçu, Mboitatá, ou boitatá significa cobra de fogo- Na obra Contos Gauchescos e Lendas do Sul, publicada pela Editora Globo em 1965 há uma descrição da lenda feita por Andrade Neves Neto e retiramos, de A MBOITATÁ,  este trecho:

– “E vai, como a boiguaçu não tinha pelos como o boi, nem escamas como o dourado, nem penas como o avestruz, nem casca como o tatu, nem couro grosso como anta, vai, o seu corpo foi ficando transparente, transparente, clareado pelos miles de luzezinhas, dos tantos olhos que foram esmagados dentro dele, deixando cada qual sua pequena réstia de luz. E vai, afinal, a boiguaçu toda já era uma luzerna, um clarão sem chamas, já era um fogaréu azulado, de luz amarela e triste e fria, saída dos olhos, que fora guardada neles, quando ainda estavam vivos…(…) Passado um tempo, a boitatá morreu; morreu de pura fraqueza morreu, porque os olhos comidos encheram-lhe o corpo mas não lhe deram sustância, pois que sustância, não tem a luz que os olhos em si entranhada tiveram quando vivos…(…) E foi então que a luz que estava presa se desatou por aí. E até pareceu cousa mandada: o sol apareceu de novo ! ”(…).

(**) A fênix, fênice ou fénix (em grego clássico: ϕοῖνιξ) é um pássaro da mitologia grega que, quando morria, entrava em auto-combustão e, passado algum tempo, renascia das próprias cinzas. Outra característica da fênix é sua força que a faz transportar em voo cargas muito pesadas, havendo lendas nas quais chega a …

Fênix – Wikipédia, a enciclopédia livre https://pt.wikipedia.org/wiki/Fênix

 (***) Incêndio em Roma – ano 64 DC

  https://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_inc%C3%AAndio_de_Roma

 P.S. Dedicado a todas e todos os atingidos pela tragédia na boate Kiss. As famílias e a cidade ainda buscam justiça. Provavelmente há irregularidades no processo que tramita, lentamente, na justiça estadual, algo que só deve se resolver por meio da federalização das investigações.

Famílias enlutadas de Santa Maria:

Custódio, Dariva, Piovesan,

Castro, Nunes, Salla, Callegaro
Bastos, Marostega, Macagnan,

Ahmad , Correa , Passamani,

Cúria, Andrade, Cechinatto

Kräulich, Gonçalves, Ercolani

Marcham ,Bona, Macedo, Freitas, Gatto,

Rebolho, Brondani,  Raschen,

Librelotto ,Gonçalves, Foggiato

Bairro ,Munchen, Thiele, Konzen

E se na vida apartavam-se tanto

Salapata, Toniolo, Leivas, Machado,

Treulieb, Mello, Holsbach, Barcellos

Becker, Cervinski , Urquiza, Malheiros

Lacerda, Vendrúsculo, Vasconcellos

Prates. Karsburg, Almeida, Pinheiros,

Lemos, Evaldt, Caminha, Fumaco

Vielmo , Onófrio, , Noronha, Medeiros

Cardoso, Iensen Dorneles, Wagner.

Segabinazzi, Uggeri , Rosado, Greff,

Carabagialle, Donati, Costa, Fischer,

Papalia, Magalhães, Glanzel, Graeff,

Jaime, Escobar, Berleze, Saenger.

Luto atingiu famílias: Rolim,
Rodrigues, Ernesto, Silveira,

Dalforno, Willers e Azzolin,

bons Campos para Ferreira,

e muita Palma, Rosa, Cechim,

Lucas, Silva e Teixeira.

Céu aos Prado, Charão

Santos, Burró, Xisto, Vieira

Flores viraram Paz, Esperidião,

Gomes, Nunes, Robe e Darin…

Caminham juntos, mesmo chão:

Giacomelli, Neu, Aita ,Püttow,

Neves, Vizioli, Neto, Matana

Carvalho, Portela , Brissow.
Canto, Bosser, e Vianna.

Sonham Dambros, Trentin,

Ramos, Soares, Nicoleti

Martins, Fiorini e Koglin.

Pozzobom, Sául, Nunes, Marin,

Andreatta, Machado, Mattos,

Lentz, Farias, Knirsch, Favarin

Freitas, Cielo, Darif, Garcia,
Goulart, Antolini, Salla, Rigolim

Costa, Ham, Taugen, Faria,

Fricks ,Sanchotene, Corcine.

Ivaniski, Lopes, Dall’agnol ,

Rechermann, Baú ,Tischer,

Cabistani , Schimitz , Saccol,

Real, Biscaino, May,Vargas,

Beuren , Simeoni , Cassol

Silvestri, Paulo, Cruz, Paim,

Jaques, Souza, Forner, Lara,

Parcianello, Simões, Pellin…

OBS. os nomes das famílias foram retirados da Internet…

 

 

Publicidade
Publicidade
Publicidade

COLUNISTAS | BLOGS

Ler outros colunistas