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Neusa Cidade Garcez

Corrigir ou permitir??

Neusa Cidade Garcez

Escritora e Historiógrafa

As palavras sempre me encantaram, desde que comecei a pronunciá-las.

Amo as palavras pois com elas pode-se compôr belos textos, expressar, através delas, nossos sentimentos e aspirações. A cada tempo elejo algumas como belas: Guadalquivir, olvidar, veludo, açúcar…

Quando não sei bem como colocá-las em uma frase, procuro ajuda. Mesmo assim cometo erros.

Por vezes percebo, decepcionada, o mau uso da nossa língua. Ao mesmo tempo, seguidamente, sinto-me envergonhada ao falar corretamente e de pronunciar fidedignamente todas as sílabas. Pior, dezenas de ocasiões fico em dúvida sobre qual a palavra correta, de tanto ouvir incorreções.

Preocupou-me um dia destes um comentário do jornalista Alexandre Garcia sobre o livro “Por uma vida melhor”. Opinava ele que o referido livro, distribuido a meio milhão de alunos, defendia novos conceitos sobre o uso da língua portugusa. No consenso de muitos autores, o livro parece defender e endossar o falar incorreto para não constranger alunos ou quem o falar assim.

De início não entendi muito bem. No entanto pensando e pensando mais, concluí que o conhecimento, o bem escrever e falar, é obtido pela educação, e esta é a base que nos dá a capacidade de nos comunicarmos.

Parafraseando Alexandre Garcia e, concordando com ele, penso que, em não corrigindo o aluno, priorizando o adequado e/ou aceitando o inadequado, estamos assistindo alunos semianalfabetos passar de ano letivo para que não sintam constrangimento. Isto é nivelar por baixo a educação. Quem aceitar isso, afirma Garcia, terá a vida nivelada por baixo.

Concordo que esse fato significa a chancela para a ignorância. Sabe- se que ela só traz infelicidade. Pesquisei, li, e tenho em mãos 26 artigos de intelectuais, pesquisadores e educadores favoráveis ao livro. Entre eles Marcos Bagno, Sirio Possenti, Thais de Camargo, Carlos Alberto Faraco, Miriam Lemle, Affonso Romano, Cristovão Tezza, Dante Lucchesi, Arnaldo Bloch entre outros.

Entretanto após exaustivas leituras, não fiquei convencida da propriedade do que a autora do livro, Heloisa Ramos, pretendeu apontar como o melhor, o mais apropriado.

Eu aprendi que é papel da escola, garantir o domínio da norma culta para o acesso efetivo aos bens culturais, o que significa garantir o pleno exercício da cidadania.

Não tenho um alto conhecimento de linguística. Minha área é a História. Porém, aceitar a escrita de frases como “nóis viu”, “nós semos bom” etc, para não provocar constrangimento, em minha opinião conduz ao pior, ou seja, fossiliza o modo “inadequado”. É sabido, é notório que o proibido, o indevido é o que fascina, o que mais facilmente se grava. Lembro da confusão que muitas vezes provocou em meus escritos, as brincadeiras engraçadas porém nefastas dos Trapalhões.

Entendi o que escreveu Luis Nassif “ O livro massacrado não defende a norma inculta. Apenas segue normas do MEC, de não desfazer a fala popular”. Desde jovenzinha aprendi, em família, depois de alguns puxões de orelha, a respeitar o falar de descendentes de polonoses, alemães e italianos. Mais tarde era meu fio condutor em aula: Respeito. Porém, sempre alertando para o uso formal da língua. Ouso afirmar que nada adianta o respeito ao incorreto, para evitar constrangimento, se não houver imediato alerta e orientação segura ao que se julgar ser correto. Nas leituras feitas sobre o referido assunto, chamou-me a atenção a afirmação de Janice Ascari, Procuradora Regional da República de São Paulo: “Minha opinião é discordante e não me convenci de que esse é o melhor método de ensino, por mais que possa estar correto do ponto de vista acadêmico. O ensino, na vida real é um desafio para educadores e professores de todas as matérias e seja qual for a classe social dos alunos.”

Repito: Humildemente reconheço não ser especialista em linguística. No entanto sei muito bem o valor da língua para uma nação. Em meu trabalho final de Mestrado, publicado pela Edifapes/Edelbra, e que teve excelente repercussão na PUC, está apontado – entre outras coisas – o mal tremendo causado pelo uso indevido da língua. No citado livro está apontado o fato das escolas uruguaias ensinarem em língua portuguesa (no período estudado). O Estado Oriental quase perdeu sua identidade. Existiram 427 estâncias de brasileiros criando gado no lado da Banda Oriental e revendendo-o sem pagar aduana. O nome do livro é: “O início da modernização do Uruguay, Implicações político, econômicas com o Rio Grande do Sul e o Império”.

O livro encontra-se na URI.

Tanto no caso uruguaio, como agora no comentado acima, se não forem tomados cuidados extremos com a língua pátria, só poderemos afirmar que nossa identidade está se perdendo, ou poderá se perder.

 

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