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Neusa Cidade Garcez

As raízes que nos sustentam

NEUSA CIDADE GARCEZ

Historiógrafa e escritora

Uri

Passavam das 23h de sábado. Olhava o celular quando, pelo watsapp, li a notícia que me emocionou e enfureceu ao mesmo tempo. Fiquei, e estou, com uma grande sensação de perda, de ausência.

Sempre me perguntei: como é possível a vida subsistir sem raízes? São elas que ligam os seres a algo – seja o que for – mais seguro, onde germinar, crescer, florescer, frutificar, perpetuar-se…Alguém dirá que em Pandora, ou em tantos outros locais, montanhas crescem no ar, sem raízes! Mas, até onde sei; e sei tão pouco – lá é um mundo ficcional. Sou uma apaixonada pela História, e por alguns de seus atores e pelo estudo sério e aprofundado de seus feitos e nutro reverência a seus legados.

Não consigo compreender, menos ainda aceitar a falta de cultura e sensibilidade de alguns habitantes de nosso Erechim que não respeitam patrimônios que nos foram “presenteados” pelo esforço manual até braçal de nossos antepassados. Patrimônio esse que nos inscreve em Organismos como o ICOMOS, como cidade de acervo merecedor de estudo, visitas e admiração.

Nosso Patrimônio arquitetônico, bem como o imaterial é o que chamo de RAIZ.

São as raízes que nos seguram, que nos amarram a valores que nos foram incutidos pelos antepassados. Alguns desses valores são imutáveis e nos fazem ser genuinamente humanos. Erechim vai perdendo seu encanto de cidade forjada pelos colonizadores, mesclada num belo caldeamento, onde seu patrimônio está a vista do visitante como em uma vitrine, aberta a todos. Está se tornando um amontoado de prédios onde se vive quase sem privacidade. Onde um vizinho ouve o outro puxar a descarga do banheiro. Onde não se tem um jardim. As árvores e os pássaros estão rareando.

O progresso e a tecnologia nos empurram para um futuro diferente. Sim, temos que aceitar. Há, com certeza, muito de positivo nisso. Mas, não é possível aceitar que tentem apagar, ou na calada da noite, ou num repente, nossa história, nossa memória cultural.

Desde muito jovem, quando vinhamos para o “centro”, eu procurava ir até próximo da Prefeitura e por alguns momentos ficava observando a “Vivenda Graciosa”. Passado o tempo, fui residir próximo ao local. Minha imaginação, fervilhava desenhando cenas vividas pelas famílias ilustres que ali residiram: quanta festa embalada – quem sabe – por Henry Miller, Mancini, ou Xavier Cugat, The Platters? Ray Connif? Rolling Stones? Em  discos, naturalmente.

Quanta história do Erechim foi escrita na bela Vivenda Graciosa? Quanta pesquisa poderia ser feita sobre ela? No entanto ela foi demolida. O local poderia abrigar um museu, o que faz tanta falta para uma cidade orgulhosa dos seus Cem anos. Ou, poderia transformar-se em uma “Casa de Cultura”, isso sim daria excelência para a cultura da centenária cidade. Entretanto, almas toscas, a ganância do “ter”, impedem que a doçura do “SER” se manifeste no saber, no respeito e na preservação do que realmente é válido e nos encaminharia na senda do Turismo e maior desenvolvimento.

Sinto vergonha de ver desmanche que se faz, sem cobranças de ninguém, de nossas unidades arquitetônicas, que mereceriam uma defesa ferrenha da população e de órgãos competentes. Só nos resta – a quem possa – viajar e pagar caro para visitar um Reina Sofia, um Prado, uma Petra, Qunram, já que por aqui nos roubam a chance de admirar, visitar e preservar.

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