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Rogério Mesquita

Opinião

Lágrima de Uma Mulher

“Lágrima de uma mulher” é uma música de autoria de Guilherme Arantes, lançada em 1993, no álbum “Castelos”, a qual vale a pena comentar, dada a profundidade da composição e a pertinência da ocasião, ante o Dia Internacional da Mulher, comemorado no dia 08 de março. Uma das motivações da obra de arte é propiciar uma “experiência culminante”, para usar uma expressão do psicólogo estadunidense Abraham Maslow.

As experiências culminantes são situações excepcionalmente felizes e excitantes na vida das pessoas, ocasionadas por profundos sentimentos de amor, exposição à arte e à música, ou vivência dos encantos da natureza. As experiências culminantes mais significativas são raras e podem ser retratadas como momentos de êxtase ou como experiências intensas e místicas.

A possibilidade de vivenciar esse sentimento de elevação através da exposição à arte exige a consciência da potencialidade da obra para transmitir algo valioso e comovente, capaz de contribuir para a qualidade de vida do apreciador, independentemente da necessidade de vivenciar diretamente a situação retratada. É o caso da canção “Lágrima de uma mulher”, que inicia com os seguintes versos:

Que mistério pode haver, na lágrima de uma mulher

Quando abre os seus segredos

Que momentos de aflição há no tremor da sua mão

Onde esconde os seus medos

É importante mencionar a inspiração do compositor para a canção, revelada num show ao vivo, em 23/08/2008, viabilizado pelo Projeto Piano na Praça, quando afirmou que se relacionou com uma mulher linda, talentosa e feliz, a qual tinha vivenciado uma história de sofrimento, o que fez com que Arantes se voltasse para essa face da mulher, capaz de se comover com a cumplicidade de uma conversa franca e demonstrar os temores decorrentes de experiências frustrantes. E a sinceridade gratuita e desinteressada deixa o homem desconcertado, pois não consegue entender a intensidade feminina. E assim segue a música com os seguintes versos:

No abandono do teu pranto eu me perdi

Não sabia o que dizer pra consolar

Tive raiva destas mágoas que puseram em você

Tive pena dos que nunca te puderam conhecer

Nada pode ser mais desesperador do que a incapacidade de confortar uma mulher que está chorando, porque o homem quer ter o controle dos sentimentos nesse mundo que considera geralmente inapropriado expressá-los, salvo em ocasiões muito específicas, como velórios, por exemplo. Contudo, esse aspecto cultural estabeleceu um verdadeiro abismo entre a capacidade feminina e a capacidade masculina de criar empatia, o que é um obstáculo quase intransponível para o homem ter uma compreensão razoável da tempestade de sentimentos inerentes à condição da mulher.

A partir do momento em que consegue ter algum alcance acerca da grave injustiça de muitas situações enfrentadas pela mulher, a reação masculina inevitável é a ira pelas mágoas incontornáveis e socialmente impostas pela cultura dominante. Consequência daí decorrente é uma ampliação de horizontes, pois o homem consegue estabelecer uma maior empatia com a mulher, o que o liberta daquela aflição inicial, que é substituída pelo lamento por aqueles que não têm essa capacidade de conhecer a condição feminina. Nesse estágio ele já consegue encontrar as palavras certas para confortar a mulher:

Eu sinto muito cada dor que te marcou

Ou que modificou seu jeito de amar

Segundo Juan Murube Del Castillo[1], as lágrimas de natureza emocional podem ser: a)  “pedidos de ajuda” (dor física, medo, raiva, humilhação, solidão, tristeza); ou b) “oferecimentos de ajuda” (solidariedade, entrega religiosa, amor passional, amor humanitário, lembranças sentimentais, alegria). As lágrimas de solicitação de ajuda surgiram juntamente com a linguagem falada, e somente milênios depois surgiram as lágrimas de doação de ajuda, que exigem um estado psíquico mais evoluído, especialmente a empatia (faculdade mental e emocional de se colocar no lugar do outro).

A mulher conhece muito bem esses dois modelos de lágrimas. Entretanto, apenas alguns homens têm capacidade suficiente para socorrer nos “pedidos de ajuda”, ou aceitar os “oferecimentos de ajuda” e, mais do que isso, entender que inexiste uma hierarquia entre esses dois modelos. Ou seja, dar ajuda é tão importante quanto recebê-la, e a consciência disso estabelece um elo perfeito entre homem e mulher. Daí a pertinência dos misteriosos versos finais:

Dos estragos improváveis de um carinho de curar

Os escudos invisíveis para um homem penetrar

Nessa conclusão da canção é possível interpretar que a experiência dolorosa da mulher a tornou imune para outras frustrações ou, em sentido inverso, que de um carinho que deveria ser curativo possam ser revividos os sofrimentos pretéritos. Diante desse dilema é preferível optar por uma outra interpretação, no sentido de que o homem que é pretensioso o bastante para pretender curar a mulher, mas ele acaba por sofrer abalos inesperados, porque consegue vislumbrar os “escudos invisíveis” femininos, e tem a certeza de que avançar é um caminho sem volta, pois nunca mais conseguirá ser superficial. Essa descoberta o deixa receoso, vacilante e angustiado. É a “ferida acesa” mencionada por Caetano Veloso, em “Luz do Sol”: “Marcha um homem sobre o chão / Leva no coração uma ferida acesa / Dono do sim e do não / Diante da visão da infinita beleza”.

Espero que os homens tenham coragem o bastante para penetrar os escudos invisíveis, pois a recompensa é por demais valiosa, qual seja a “visão da infinita beleza” que habita o universo feminino.

Feliz Dia Internacional da Mulher!

[1]https://super.abril.com.br/comportamento/por-que-choramos/. Acesso em 08-03-2019.

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