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Marco Antônio Scheuer de Souza

A LÍNGUA

Bons olhos, amados leitores!

Num Festival de Esquetes – no Teatro da bela Cittadella Colturale – a noite e os convidados foram agraciados com a apresentação de um esquete relacionado, em suma, com aquela conhecida historieta envolvendo o Rei e o Bobo da Corte, a respeito da língua. Relembrando-a, o Rei pediu ao Bobo que servisse a ele e aos seus comensais o melhor prato. Ele serviu língua. Ante tão paupérrima iguaria, o Rei quis saber o porquê da escolha. O Bufão explicou: é ela que perdoa, estabelece tratados de paz e tantas outras coisas maravilhosas. Logo após, o Rei mandou que o Bobo trouxesse o pior prato. E a língua voltou à mesa. O Rei tornou a questionar. E o Bufo respondeu: é ela que cabala a traição, declara a guerra e produz inúmeros outros males. O esquete apresentado de forma atualizada, enfim, findou e os velhos amigos se dirigiram – como de costume – ao Caffè Bric-à-Brac.

          Instalados à mesa quatro, e devidamente servidos pelo Pablito – não pediram língua! –, o Valdeco abriu os trabalhos afirmando: — Aquilo que foi encenado no esquete é do tempo do ariri pistola. Quero dizer, tem cheiro de ser anterior à invenção da escrita. Os povos não escreviam. Veja-se que Aristóteles relatou que conhecia cidades onde os cidadãos sequer sabiam falar. Escrever, então… Em tais épocas o verbo era o grande criador e destruidor de tudo, eis, que comunicava a ordem emanada. Era, porquanto, a palavra que expressava e fixava a vontade ocorrente em dado instante. Daí, aliás, a importância das solenidades, nas quais a palavra, o gesto (sinal) e a intenção (esta, presumida) conviviam juntos. Com o andar da carreta, a escrita foi criada e, pouco a pouco, foi sendo substituído o sistema baseado apenas na palavra. Em outras, a pena foi substituindo a língua. Todavia, como cantava o rei Roberto Carlos, na canção Uma Palavra Amiga, eu quero ouvir uma palavra amiga

          — E ouvirás mais de uma, colheu a deixa Garufa, jornalista de escol. Ouvirás mais de uma. Com a invenção da escrita, que Platão – em Fedro – atribuiu a Thoth (deus egípcio correspondente a Hermes, na Grécia; e a Mercúrio, em Roma), a vontade dos homens foi sendo comunicada através dela. Os casamentos mais importantes, os títulos de nobreza, os contratos de feudos terrestres e aéreos (cargos públicos), além de outros atos – em conjunto com as solenidades – foram sendo registrados através da escrita.  O escriba passava a concorrer, em importância, com o porta-voz. Os atos mais importantes passaram a ser lançados em pergaminhos, papiros, tábuas (de pedra ou madeira) e, mais tarde, em papéis que, aliás, estão com os dias contados. Pelos menos, os dias de glória! É interessante lembrar que, na Idade Média, a Igreja Romana comunicava, digamos assim, as suas verdades através de representações teatrais feitas nas ruas dos burgos de então. Com a invenção do cinema, não esqueçamos, os EUA levaram as suas verdades para as películas, seguindo a mesma linha anterior, porém, com nova técnica. Com o iluminismo, assentado em livros, a aposta foi feita nos jornais que, coisa de todos sabida, foi uma das grandes armas na luta da república contra a monarquia. Mas, a palavra (oral) seguiu existindo, rente ao termo (escrito), eis que, os poucos que liam os jornais, transmitiam oralmente o conteúdo aos seus, que não liam ou não tinham acesso às gazetas. Até o vendedor de jornais do ontem gritava pelas ruas: Extra! Extra! Ocorreu isso ou aquilo! Sem contar o anúncio entoado pelos seus pares, andando e gritando – lembram em Porto Alegre? –: Correeeeeeio! Zeeeeero Ho-ra! Foolha! Este último, anunciado em tom seco. Confere?

          O Bode Velho, como que remoendo as lembranças, pigarreou e lascou: — A língua, enquanto palavra pronunciada ou expressada de modo oral, segue sendo importante. Notem que estamos ouvindo música, que – na prática popular – significa um poema musicado, o inverso ou ambos conjuntamente. A tradição ainda mantém o gesto e a palavra, mesmo que obedecendo a um texto escrito, qual ocorre nos templos religiosos ou filosóficos. Às vezes, mesmo andando juntos – palavra e texto –, um pode ter importância maior no contexto. Meus caros, analisemos o caso do casamento. A palavra sim, o consentimento oral – entre os que falam – é essencial: é de rigor nas solenidades. Enfim, é a palavra tomada a termo, tal qual, ainda, nos depoimentos prestados por partes e testemunhas nos fóruns e tribunais. Muitas vezes, porém, o interesse particular ou o público pretende extremar a importância do falado ou do escrito.

          — Eis, a questão (bravejou o Rábula): o interesse! Permissa maxima venia, aí reside o conflito. Apanhemos, verbi gratia, a chamada Operação Lava-Jato. A importância dos depoimentos orais das testemunhas e delatores, somados às gravações de ligações telefônicas. A verdade é manifestada oralmente. Depois, sim, é transcrita ou degravada. E, em alguns casos concretos, como o do Triplex ou do Sítio de Atibaia – atribuídos ao Lula pelo Ministério Público –, conflita com a pretensa verdade que se acha lançada nas respectivas Escrituras Públicas. No centro da discussão, portanto, o interesse: uns, querem que se sobreponham as palavras (depoimentos orais, et coetera); outros, o texto escrito nas Escrituras. Vale mencionar, aqui, que – principalmente em casos onde os pais faziam de conta que haviam vendido imóveis a terceiros (que serviam de testas de ferro, cabeças de prego, homens de palha), escriturando-os em seus nomes para, anos depois, os transferirem a algum dos filhos do pseudo vendedor, sob a aparência de revenda (ou, no fundo, uma verdadeira doação enrustida), – tantas foram as decisões judiciais invalidando tais Escrituras Públicas – em face de depoimentos de testemunhas e outros indícios – a ponto de inúmeros desembargadores, em seus julgados, expressarem que o sistema de Escrituração Pública escondia, muitas vezes, certos sepulcros caiados. E…

          — Amigos! Já entendemos (interrompeu Bode Velho). Depois, dessa preciosidade do sepulcro caiado, ou seja, do instrumento limpo e puro por fora (quer dizer, na sua forma), mas, podre por dentro (quer dizer no seu conteúdo), e o paralelo feito com alguns casos da Lava-Jato, ainda que não tenha havido menção às prestações de contas na Justiça Eleitoral, eu proponho um brinde à língua, pois, só a língua pode salvar o Brasil. Viva a língua! Vivat! Vivat! Semper vivat!

          — Viva! Aquiesceram os outros três. Os outros três e… muitos dos presentes que ouviam a conversa.

            Até o próximo cafezinho, amados leitores. Bons olhos!

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