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Marco Antônio Scheuer de Souza

CAFFÈ BRIC-À-BRAC: O Estabelecimento

Bons olhos, amados leitores!

O CAFFÈ BRIC-À-BRAC é um ambiente fabuloso que, aquém do balcão de atendimento, possui doze mesas e quarenta e oito cadeiras. Mas, não só! Sua parede leste ostenta uma estante de livros filosóficos e literários com exemplares das obras de todos os escritores locais, desde os mais antigos até os mais modernos, sobre a qual se lê: BIBLIOTHÈQUE. Mas, não só! Pois, na sua parede oeste, abaixo da inscrição PINACOTHÈQUE, há quadros com cópias das telas mais famosas de Degas, Van Gogh, Monet, Renoir, Toulouse-Lautrec, Cézanne, Modigliani, Picasso, Salvador Dalí, Utrillo e mais mestres da Montmartre que Aznavour eternizou em La Bohème. Aos fundos, após um portal com a inscrição DISCOTHÈQUE, há uma saleta contendo: discos de vinil, fitas K-7, CDs e vários aparelhos que reproduzem sons. Mas, não só! Há, ainda, um pequeno tablado – com microfones e aparelhagem sonora – apto a receber músicos, cantores e outros artistas mais.

O proprietário? Um argentino, de origem francesa, radicado no Brasil há muitos anos, que mantém o velho hábito portenho de – quando alguém facilita o troco com moedas miúdas – dizer: muy amable! Ademais, ainda não se sabe muito bem o porquê, sempre que um frequentador reclama de algo publicamente ele, em silêncio, vai até o interior do balcão e – a meia-voz – exclama: la concha de tu madre, boludo! Se frequentadora, simples e gentilmente, desculpa-se. Seu nome? Juan Pablo. Por ser meio litro e magriço é chamado de Pablito.

Dentre os habituées destacam-se quatro: a) Rábula; b) Garufa; c) Valdeco; e, d) Bode Velho. Têm cadeiras cativas à mesa quatro, junto à parede leste. Formam o popular quarteto da quatro.

Rábula. Advogado astuto, mitrado e chicaneiro que só. Um elegante diplomata no vestir e no falar. Mas, de língua afiada e virulenta – dizem –, às vezes.

Garufa. Articulista ladino, manhoso no uso das palavras e dos termos – ou seja, no falar e no escrever –, useiro e vezeiro das explanações gordas de metáforas e magras de piedade.

Valdeco. Barnabé aposentado que, após a Jovem Guarda, havia sido hippie de butique. Bom violão, não lhe falta voz nem para um blue, nem para um gotán. Autodidata, como poucos, é um leitor assíduo de grandes obras literárias.

Bode Velho. Poeta e quincas. Nasceu no poetariado, segundo se gaba. Sempre esticando o olho para a filosofia livresca e para qualquer rabo de saia que saia ou entre no Café.

O Caffè Bric-à-Brac é um daqueles pontos onde ocorrem grandes debates – do tipo que consertam o mundo – e, por tal, atrai curiosos, tímidos, tartamudos, poetas de um livro só, escritores bissextos, emergentes em busca de visibilidade e modelos incautas. É, ainda, um lugar por onde passam muitos edis à cata de ideias para seus debates na Casa do Povo e, claro, terneritos do alcaide.

Por fim, como uma carta fora do baralho, não custa mencionar que esse ambiente – poético, utópico e fantasioso –, palco de fabulosos debates, fica situado num mítico e alegórico distrito cultural denominado: Cittadella Colturale. Em sendo, eu, um frequentador assíduo de tal espaço intelectual, confesso a tentação medonha de querer confidenciar aos leitores do Jornal Atmosfera algumas das cenas mais calientes que presenciei ou venha a presenciar. Caso eu – carne fraca – não resista à tentação, por favor: leiam e comam em tranca; não espalhem; não divulguem; não compartilhem; não comentem; não digam nada a ninguém; não isso e não aquilo. E, como lembrete final, leiam o texto em silêncio – no máximo, em voz baixa –, pois, como nos ensina o velho ditado: o silêncio é de ouro! E, como lembrete mais final ainda, enterrem cada um de tais heréticos textos em uma das tumbas do cemitério das vossas memórias; atirem sobre cada um deles uma pá de cal; e, inscrevam sobre a lápide: requiescat in pace.

Até a próxima cena, amados leitores. Bons olhos!

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