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Maicon André Malacarne

“Deixai toda esperança, vós que entrais”

– Não tenhas medo – respondeu Virgílio, experiente –
mas não sejas fraco!
Aqui chegamos ao lugar, do qual antes te falei,
 onde encontraríamos as almas sofredoras que já perderam
seu livre poder de arbítrio.
Não temas, pois tu não és uma delas,
tu ainda vives.
Em seguida, Virgílio segurou minha mão,
sorriu para me dar confiança,
e me guiou na direção daquele sinistro portal.

Eis a inscrição no grandioso portal do inferno. Encontramo-lo no Canto III – do primeiro livro: o Inferno – de Dante Alighieri na Divina Comédia, uma das maiores obras da história da literatura. Há quem a compare com a Suma Teológica, de Tomás de Aquino, assumindo a forma poética. Os outros dois livros de Divina Comédia são o Purgatório e o Paraíso. Boticelli e Salvador Dalí foram dois dos muitos artistas que inspiraram suas obras nesse monumento da poesia.

A poesia de toda essa obra tem marcas medievais. Também o livro sobre o Inferno descreve as desgraças e tristezas desse mundo inferior. É terrível. Devemos tomar a obra (não só essa!) e lê-la dentro de um contexto específico. Claro, não queremos fazer nenhum tipo de análise da Divina Comédia de Dante aqui, até por não ter capacidade para tal. A inspiração é simbólica.

O inferno é tido comumente como o terror eterno. Em contrapartida, está o céu. Esse olhar carrega marcas platônicas profundas do dualismo, assim como as categorias “corpo x alma”. A teologia moderna faz um esforço para superar essa divisão. Mas isso é outra conversa. O que queremos aqui é falar de esperança! Sim, esperança!
Dante deixa claro, no portal do mundo inferior, que esse não é um espaço para carregar nenhuma expectativa. Nada de esperança: deixai-a, vós que entrais. Dante fala de punições que os pecadores vão pagar por terem cometido falhas em vida. As punições são variadas e se aplicam, conforme os pecados cometidos. Para o poeta italiano, os semeadores da discórdia são cortados em pedaços, e os suicidas vivem como árvores pelo fim dos tempos. Aduladores nadam em mares de excrementos e traidores são condenados a terem suas cabeças comidas por aqueles que traíram. A única coisa que não pode existir é a esperança!

A esperança nos move para o outro lado do dualismo: o céu! Parece sintomático, mas estamos numa conjuntura de carecer de esperança. A falta de esperança faz gerar ódio. Faz gerar morte. Algo bem próprio da dinâmica do Inferno de Dante. Abandonar a esperança é lançar-se nos vales do nada. Por outro lado, olhar para a vida e para o nosso tempo com esperança é iniciar aqui a possibilidade do céu, da vida abundante, dos risos, do bolo de chocolate que não falta (numa outra ocasião, contarei a história do bolo de chocolate). O céu está cheio de bolos de chocolate! Que delícia!

Não gosto desse paradoxo entre céu x inferno. Porém, penso que Dante nos ajuda a pensar e o projeto de vida tem tudo a ver com esperança. É uma forma de olhar o mundo. É uma forma de olhar a política. É uma forma de olhar as religiões. É uma forma de viver a fé. É uma forma de escolher o céu ou o inferno. Ainda aqui!
Esperança não é uma atitude de acomodação. Esperança não é esperar passivamente. Paulo Freire, o maior pensador de educação no Brasil, ajudou a refletir esperança com o verbo “esperançar”. O verbo indica ação. Poderíamos dizer que é uma esperança prática. Nas palavras do mestre: “É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…”

Esperança, assim, também tem a ver com memória. Não é possível esperançar apenas de forma egoísta e futurista. A esperança se constrói com as marcas da história. Há marcas positivas e traumas nos nossos caminhos. Amnésia não ajuda ninguém a ser feliz. A esperança tá fincada nesse pilar da memória. Ali buscamos referências para o horizontes. Ali buscamos sentido para as dores e sofrimentos. Um caminho que deve ser feito. Esperança e amnésia não combinam.

A poesia de Dante nos ajuda a pensar muita coisa. É extremamente simbólica e universal. O portal do Inferno mexe com um tempo de falta de esperança. Entrar ou buscar outro caminho? Eu gosto mais do céu. Até acho que ninguém decidiu entrar e passar pelo portal. Sendo livres, a decisão de entrar é nossa. Há que se deixar a esperança. A poesia tem dessas loucuras.

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