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Marco Antônio Scheuer de Souza

LEGADOS

Bons olhos, amados leitores!

Se a Cittadella Colturale é essencialmente democrática, o Caffè Bric-à-Brac, então… Em certas noites, conta com a presença de outros quatro singulares amigos: Nico, um profissional liberal que exerce o ofício de eletricista; Nelo, um industriário do ramo metalúrgico, que trabalha como torneiro mecânico em uma empresa local; Neca, comerciária, que é vendedora de produtos da linha branca em uma das lojas da cidade; e, por último, Nem-nem que, como o apelido indica, nem trabalha e nem estuda. Vive da mesada dos pais. Entretanto, é gente boa. Tem carisma, boa pinta, isso e aquilo, e – se for pouco – cantarola cançonetas da linha sertaneja, além de declamar poesias de cabeça. Sabe tudo de cor. De cor e salteado, algumas vezes. Sentados à mesa 5, conversavam alegremente, enquanto bebiam suas habituais cervejas.

— Pablito! Mais um tubo de espuma, mandou ver Nico. Voltando-se para os seus, disse: — Pois, é. Agora que sou pai, já começo a pensar no legado que os pais devem deixar aos filhos. Ainda, acho que o melhor é dar-lhes educação. Devem proporcionar um bom nível de estudo, em uma boa escola e em uma boa universidade. O sacrifício é grande. Mas, dizem que vale a pena. Afinal, tantas pessoas humildes – após fazerem uma boa faculdade – venceram na vida. Tenho um amigo de infância, o Bepe – filho do Toni, vocês conhecem –, ele estudou e virou contador, arrumou um bom emprego e, agora, tem um bom padrão de vida. Casa própria, bom carro e ouvi dizer que quer comprar um sítio na beira de um rio. É. Ele sempre gostou de pescar. Lambari, então. Puxa! Que saudade do Bepe. Parece que foi ontem, a gente pescando juntos. Como o tempo passa! Porco cane! Como o tempo passa! Bem, eu já falei com a mulher. Nós vamos por aí, por esse caminho da educação. Acho que vai dar certo. Se Deus quiser, há de dar certo…

— Pois eu, de minha parte, já sou da opinião que o melhor seria deixar para os filhos um bom patrimônio, atalhou a Neca. Deixar um bom apartamento, algumas casas e, até, uma sala comercial. Vocês sabem, com o preço dos aluguéis subindo a cada pouco, eles teriam como viver. Pelo mínimo, teriam onde morar. O que já é uma grande coisa. Eu? Nem isso tenho. Mas, vou ter se Deus ajudar. Daí, meus amigos, eu poderia morrer em paz. Seria só eles saberem administrar. Ir levando, como faz tanta gente por aí. Teriam, até, com o que começar um negocinho. Montar uma lojinha, algo assim. Porque uma vez era tudo mais fácil. Mas, hoje em dia… Vejam os juros. Jesus! Tão pela hora da morte. Pensa num juro alto. E multiplica. Os do cartão de crédito, Nossa Senhora! De morrer! De morrer! Quem que aguenta? E o governo que não faz nada! Então, para que não sofram tanto quanto a gente, acho que o melhor seria deixar para eles alguns bens de raiz. É de raiz que dizem, não é? É, sim! De raiz! E mais um dinheirinho. Depois, eles que se virassem, ora! Que ninguém é de ferro! Eu penso assim. Penso assim e pronto!

Nelo, após beber um gole de cerveja e devolver o copo à mesa, mandou ver: — Sei lá. Eu, ainda, acredito mais no exemplo. Conheço uns xirus que deixaram para os guris só o bom exemplo. Nada mais. E deu certo. Hoje os piás e as gurias estão bem. Não levam vida de rico. É verdade. Mas, vivem bem. Viver bem é o que importa. Morrer? Todo mundo vai morrer. Da morte, como dizia meu pai – que Deus o tenha! –, ninguém escapa. Ninguém escapa e ninguém volta. Eu, se ganhar um bom troco, vou querer viver um pouco, também. Não acho certo viver só pra piazada como fazem alguns. Eles, quando crescerem, que façam a parte deles. Mas, o exemplo sim. Este não pode faltar. E, comigo, não vai faltar. Para estudar têm as escolas públicas. Não é pra isto que pagamos nossos impostos? Então, eles que estudem lá. Faculdade, então? Aí, primeiro tem que ver se querem. Mas, o exemplo? Aliás, o bom exemplo? Este não pode faltar. Deus me livre! O exemplo é tudo. Eu, hem? O que é que você acha Nem-nem? O que é que você acha?

— Bah, Nelo! Tô contigo, cara. Aliás, concordo com vocês três. Só que tem um porém, galera. Vejam o caso Rich, Rich, Richthofen. Caraca! Que nomezinho difícil. Nem quero pensar naquele demônio da Suzana. Pensa no irmão dela, o Andreas. O pai, Manfred, era engenheiro. A mãe, Marísia, psiquiatra. E os filhos, tudo louco. Deram o bom exemplo? Claro que deram. Estudaram, trabalhavam e tinham família. Os filhos tiveram estudo? Os dois. Mas, pensa no Andreas. Depois de estudar nos melhores colégios particulares fez faculdade na USP. Mais que faculdade. Fez doutorado. E patrimônio, faltou? Neca pau! O Andreas ficou – sozinho – com um patrimônio de mais ou menos onze milhões de reais. Quando é que a gente vai ver uma grana dessas? Nunquinha, gente boa. Nunquinha! No entanto, vocês sabem que ele foi encontrado pela polícia perambulando pelas ruas, feito um mendigo. Um indigente. Daqueles, tipo cracolândia. E teve o melhor dessas três coisas que vocês falaram. Teve estudo. Teve bom exemplo. E, teve patrimônio. Aliás, tem. Porque está vivo. As regras gerais têm exceções e…

— Cruz! Credo! Para de moer, Nem-nem. Diz uma poesia pra gente descontrair um pouco…

— Tá bem. Tá bem. Desculpa. Lá vai. Do livro Alma de Gaúcho, de Marco Antônio de Souza, a poesia intitulada Mas, os cobres…:

          “Depois de algumas canhas bem tomadas,

          o Zé da Benta – que era bom peão –,

          já com as vistas, algo, embaçadas

          ousou se comparar ao seu patrão.

— Também uso bombacha – e lindaça –,

sem contar o meu lenço no pescoço;

                     além do borrachão para a manguaça

                     e da adaga com cabo de osso.

          Também tenho um zaino – e dos bão! –,

          ainda que pareça meio tonto.

          Então, ando igualzito ao meu patrão.

                     Ouvindo aquela trela e seus desdobres,

                     o João Campeiro sentenciou de pronto:

                     — Guaiaca, também tens; porém, os cobres…”

          — Esse é o nosso Nem-nem! Grande Nem-nem! Bradou o Nico (aplausos, assovios e risos).

          Amados leitores, bons olhos!

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