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Marco Antônio Scheuer de Souza

MAS, CHE…

Tarde de sexta-feira. Aproveitando um momento em que o Caffé Bric-à-Brac se fez vazio, dentro da consagrada Cittadella Colturale, Barba adentrou e sentou-se. Pablito – ante um singelo e silente sinal – levou um chá de lótus até o ensimesmado freguês. Após provar um gole da – melhor dita – infusão, Barba dirigiu a sua capacidade intelectiva para um tema que, naquele instante entendeu oportuno: relembrar outro geminiano barbudo, rever algumas considerações a respeito e, principalmente, verificar o que se pode colher de útil da vida e obra de uma polêmica figura histórica – lógico – deixando de lado os seus muitos desmandos. No fundo, seguindo uma das aplicações práticas da famosa representação gráfica do Yin-Yang, consubstanciada em uma frase interessante: há muito de pecador em um santo; e, muito de santo em um pecador. Ousou, por conseguinte e revisitando a sua canastra memorial, relembrar algumas coisas e extrair algo de útil, tudo através da trilogia: um objeto, uma canção e um livro…

O objeto? Uma velha boina preta. Usável ao estilo Montgomery, obviamente. Todavia, com uma estrela – ponta para cima – não, necessariamente ligada à revolução política e material. Entretanto, por que invocar rebeliões psicológicas ou internas? O comum dos mortais quer saber é do pão material. Porém, o Barba não está falando com outros, mas, consigo mesmo. E isso muda tudo! Portanto, a boina preta. E com uma bela estrela de metal – repetindo – com a ponta para cima, indicando a distinta representação de um microcosmo divinizado pelo exercício da seleta e invencível vontade do seu portador; indicando o seu domínio sobre os quatro elementos. Claro, a boina dele: Barba. Pois, que – assim, de repente e como num sonho – a dita boina preta, com a tal estrela, ressurge na cabeça de um jovem na flor dos seus vinte anos de paz e amor. Com isso, um flash-back de alguns momentos de práticas relacionadas com esportes de risco; algo como montanhismo, canoagem e coisas do tipo. Enfim, a lembrança de um objeto que, hoje repousando em um velho baú, também, pode ser visto em um daqueles pôsteres que enfeitavam as paredes dos quartos de muitos jovens na década de 70. Imitação? Modismo? Ingenuidade? No presente, contudo, só um item arquivado…

A canção? Aquela que leva o nome Sentinela, nascida da indiscutível potência poética e musical de Milton Nascimento. Ela inicia com os seguintes versos: Morte, vela sentinela sou do corpo desse meu irmão que já se vai. (…). Vulto negro, em meu rumo, vem mostrar a sua dor plantada nesse chão. Seu rosto brilha em reza, brilha em faca e flor. Com tal simplicidade, o cantor e compositor prestava a sua homenagem ao guerrilheiro, então, recém-assassinado (pois, morto na prisão e não em combate). Naqueles idos anos de 1967, quando o Brasil – ao lado de muitos países da América do Sul – convivia com a morte de centenas de jovens em passeatas, em manifestações e em porões da Ditadura Militar. Essas centenas de jovens, não tão famosos quanto o ídolo cantado por Milton Nascimento, cumpriam a sina de alguns que ousavam sair do mutismo, ou quietismo, e afrontar a dita Doutrina da Segurança Nacional. Hoje, por questões sociais ou outras, jovens continuam encontrando a morte – em maior quantidade, até – em confrontos com membros da segurança estatal, mesmo sem as doutrinas da Segurança Nacional, da Tolerância Zero, ou, do Direito Penal do Inimigo. Continuamos, todos, muito humanos…

O livro? Sierra Maestra: Da Guerrilha ao Poder. Obra da lavra de Ernesto Guevara de la Serna: El Che! Um livro em que narrou as principais peripécias da aventura revolucionária armada que, em Cuba, chegou ao poder. Sem adentrar no mérito da epopeia e nem nas consequências, ou nas questões ideológicas, de tal feito histórico, Barba recordou algumas passagens (às folhas 206 e 207, edição da Edições Populares, São Paulo, 1980), onde Che Guevara afirmou: Quando chegou a hora dos hierárquicos, quase uma centena de capitães (…) aspiravam às regalias, além de um grande e “seleto” núcleo de homens (…) que aspiravam a toda uma série de cargos na engrenagem estatal. Não se tratava de cargos excessivamente bem pagos, mas todos tinham uma característica, eram os postos onde se roubava na administração pré-revolucinária. (…) todos os lugares onde o dinheiro corria e passava por suas ávidas mãos. (…). Que não nos custe chamar o ladrão de ladrão, porque nós mesmos, em louvor ao que batizamos comodamente como “tática revolucionária”, chamamos de “ex-presidente” ao ladrão (…). Ladrão é ladrão e morrerá ladrão. Pelo menos o ladrão de alto coturno (…). Este que rouba para conseguir mulheres e drogas e bebidas alcoólicas, para satisfazer os baixos instintos que o animam, será ladrão a vida toda. E o Barba, como não poderia deixar de ser, traz os excertos colhidos da obra mencionada para a atual realidade brasileira. Josés (Genuínos, Dirceus e outros mais) e não Josés, todos revolucionários da gema; guerrilheiros; enfim, a nata da fina flor da esquerda brasileira. Eles e a sua alma socialista (comunista, até), seguindo os passos de outros tantos ladrões da dita Revolução Cubana. Muito mais pensou o Barba. Mas, só por deleite intelectivo, lamento emotivo e contabilidade material. Afinal de contas, o Brasil ficou mais pobre. Mas, muitos esquerdistas mais ricos… Eles não leram Che? Aliás, ele mencionou um “ex-presidente” no texto; o Moro na sentença…

Após a paga da conta, o Barba tomou seu rumo.

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