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O futuro deles preocupa?

Sempre tive interesse em escutar as pessoas. Familiares, amigos e até desconhecidos. Toda pessoa tem algo interessante a dizer se você realmente escutá-la. Penso que isso me levou à psicologia. Nos últimos tempos, tenho ouvido que a vida está mais difícil de ser vivida. Que a sensação de vazio toma conta de um número cada vez maior de pessoas. Principalmente das mais jovens, um público com o qual tenho muito contato ao longo desses anos de atividade profissional.

Confesso que isto me intrigava, já que as facilidades e o conforto trazidos pela vida moderna são evidentes e facilitaram drasticamente a forma como vivemos nossas rotinas. Lembro do trabalho que nossas avós tinham para lavar roupa. Na mão, numa época em que máquinas lavadoras eram inacessíveis ou inexistentes. Da dificuldade de comunicação, num tempo sem telefones celulares e internet. Então fui percebendo que a sensação de vazio independia do aumento no número de serviços disponíveis, do conforto e da tecnologia. Que muitas vezes o desconforto que as pessoas sentiam podia até ser ampliado pelo maior envolvimento com a tecnologia, sobretudo as redes sociais. E principalmente entre os mais jovens.

Focando nos jovens hoje, aqueles nascidos entre as décadas de 1990 e 2000, a chamada “geração z” na terminologia dos pesquisadores, eles têm um grau de abundância material muito superior que gerações anteriores, como a minha por exemplo. Mas também tem fontes de sofrimento novas. Não é frescura, mimimi ou chorar de barriga cheia. É sofrimento real. Tão real que muitos não suportam, se automutilam ou tiram suas vidas. Várias pesquisas apontam um aumento nos casos de depressão e suicídio entre os jovens. No mundo todo.

O psicólogo Christian Dunker, professor e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), tem abordado esse assunto em vários livros e artigos. Chama a atenção para os fatores que causam vazio, desconforto e sofrimento a um número cada vez maior de jovens. Do ponto de vista de um futuro profissional, eles não contam com a certeza que terão sucesso em um mundo cada vez mais competitivo e num país em crise econômica há longos anos. São inseguros quanto à possibilidade de superarem seus pais. Pais que projetam um plano para eles de pleno sucesso, plena felicidade e pouca frustração. Basta ver o comportamento de muitos pais em escolas, principalmente as de classe média. A agenda diária de seus filhos é lotada de atividades, tudo dentro e fora da escola deve reforçar a autoestima. Devem ser poupados de traumas e sofrimentos. Ouvem de pais e professores que tudo que fazem é ótimo, que serão felizes e terão sucesso num futuro seguro e livre de riscos. Mas sabemos que o mundo não é um lugar acolhedor onde só teremos aplausos. O mercado muitas vezes, arranha nossa autoestima. A frustração dessa expedição montada por pais e escolas para o sucesso e felicidade plenos (na expressão do professor e filósofo Luiz Felipe Pondé) tem tido um custo alto quando esses jovens são confrontados com a realidade. Ansiedade, depressão, uso de drogas e suicídio são cada vez mais comuns.

A imersão dos jovens nas redes sociais também é elemento de possível sofrimento. Isso porque são confrontados todo tempo com vidas que parecem ser melhores que as suas. Por gente que parece ter mais dinheiro, que curte mais a vida, que viaja mais, é mais bonito e superfeliz. Mesmo que seja uma felicidade editada. A mãe daquela amiga da escola que viaja sempre para lugares legais pode sofrer violência doméstica. O pai do amigo que tem o carro que todos admiram, pode não falar com um irmão há anos. Pouco importa. A vida nas redes sociais independe da verdade do que se passa quando ninguém está olhando. Do ponto de vista de muitos jovens, o que importa é ser visto como alguém legal e relevante para os outros. Quem é mais comentado e curtido é melhor, mais inteligente e mais feliz. A comparação é insuportável para muitos.

Mas é claro que nem tudo são pedras e espinhos. A tecnologia digital e a internet trouxeram coisas muito positivas. Velocidade de comunicação e acesso à informação inimagináveis pouco tempo atrás. Ressaltei aquilo que tenho percebido e lido como causas de angústia para muitos jovens. Tenho filhas na infância e na juventude. Recebo jovens em meu consultório. O futuro deles me preocupa. Talvez também preocupe você.