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Marco Antônio Scheuer de Souza

O PARAÍSO

Bons olhos, amados leitores!

Ali! Bem ali! No centro da mesa número 4. Sim. Um exemplar de um tipo de livro que povoou de sonhos a mente de incontáveis jovens pelas décadas passadas. Coisas de um mundo mais natural e, por óbvio, menos artificializado. Um mundo em que o escotismo, inclusive, era o espaço onde um bocado das aventuras escritas sobre a vida ao ar livre poderia sair dos livros para adentrar na vida real. Bons tempos, aliás. Bons tempos! Sim, ali – no centro da mesa 4 –, sua majestade Robinson Crusoé, de Daniel Defoe. Alguém, quiçá, um saudosista, o havia retirado da estante e, malandramente (ou, não), o havia deixado sobre a mesa 4 do Caffè Bric-à-Brac. Coisas da providência? Deixemos pra lá… A verdade é que, como um velho navio atracado em um velho porto, ali estava a obra de Defoe. Que marujos embarcariam nele e que mares navegariam? Claro! Eufóricos, os integrantes do quarteto adentraram no recinto e sentaram-se à já sabida mesa. Teria o barco, digo, o livro aguardado em vão?

— Pablito! O de costume! Pediu Valdeco que, na sequência e com o livro já em mãos, suspirou: Ah! Minha linda infância… Oh! Que saudades de tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais! Robinson Crusoé e seu paraíso. Um paraíso: sem sogras, sem juros de cartão, sem relógios e horários marcados, sem notícias de atentados terroristas e sem índices inflacionários. Enfim, sem essas odiosas coisas do cotidiano. Por outro lado, um paraíso: com voos de pássaros, com céu azulado, com brancas nuvens, com brisas soprando as sonoras flautas de pã dos taquarais nativos. Enfim, com as adoráveis coisas que a natureza proporciona e que estiveram junto a nós na infância, em dias de sol sem fim. Que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras, à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais!… Estático, olhar perdido, livro em mãos – algo trêmulas – Valdeco teria embarcado no navio?…

 — Amigos, acho que Daniel Defoe recriou o Pardes, com um toque mais existencialista. Antes do inferno são os homens – riu –, do inferno no existencialismo de Sartre. Um paraíso diferente daquele do Gênesis bíblico, posto que sem a imortal árvore do bem e do mal, sem os quatro impolutos rios edênicos, sem a incauta Eva e – ainda – sem a diplomática serpente. Logo, sem expulsões, também. (Esse é o nosso Bode Velho! Quando inspirado, pensou Valdeco, solta o verbo!). E – seguiu o inspirado – uma divindade tão fiscalizadora quanto um reitor de seminário. Que, desde a velha Roma, ecoa incessantemente a insuperável pergunta e máxima expressada por Juvenal em suas Sátiras: quis custodiet ipsos custodes? Em vernáculo, quem fiscaliza esses fiscais? Eles de fato manteriam as mulheres dos nobres romanos afastadas da prevaricação, enquanto eles estivessem ausentes? Ou?… Mas, voltando à vaca fria, o tal paraíso bíblico povoa o imaginário das pessoas. E isso, inclusive, porque há uma força psicológica que se resume na expressão atribuída a Tertuliano – também, romano antigo –: credo quia absurdum! Em outras, creio porque é absurdo. Se absurdo porque seria absurdo não crer, como queria o abade Eliphas Levi, isso já é outro carnaval. Mas, de qualquer modo, agradável. Tão agradável quanto a lembrança da nossa infância que, qual no poema – Meus Oito Anos – de Casimiro d’Abreu, recordado pelo Valdeco, não voltará mais. A nossa infância, mes amis, não voltará mais. Ela já foi para o oriente eterno. Essa non torna più. Que pena…

— Pena? Pena me dá quando – em momentos paradisíacos como este – me pego a pensar na Baleia, aquela cachorrinha do conto de Graciliano Ramos, inserido por ele em Vidas Secas. Lembram? Pois, é – lamentou Garufa –, coberta de chagas e sob a suspeita de estar com hidrofobia, foi sentenciada ao tiro de misericórdia que, sem lhe produzir a morte imediata, lhe proporcionou a visão de um nordestino paraíso canino. A pena só se acaba quando, por fim, dou-me conta de que suas dores cessaram ante tão sublime visão. E nesse paraíso canino, parceiros – também, sem um deus – só cabiam as crianças: as alegres e doces crianças da infância de todos nós e não só a da infância do Casimiro de Abreu. Crianças para brincar em um pátio enorme. Sem contar os preás, é claro, gordos e enormes. E, com isso, dou-me conta – ademais – que os paraísos são diferentes. Que, diferentes são os seres. Que, diferentes são as culturas. E nem quero, aqui, pensar no Nirvana.

— O Nirvana, Garufa – mandou ver Rábula –, olha que, de repente ele existe mesmo. O Nirvana, aquele estado de paz e quietude, foi inventado na Índia e, após ter sido aperfeiçoado no Brasil, já pode ser gozado nos Estados Unidos. E, cá neste chão tropical, pode ser destinado aos espertos, não aos sábios. Aos impuros, não aos puros. E, permissa venia, nem Krishna, nem Sidarta Gautama, nem Gandhi, poderiam fazer com que alguns seres humanos – após, cometerem abomináveis crimes de lesa-pátria – pudessem chegar tão rápida e eficazmente ao Nirvana. Afinal, o dito ladrãozinho – aquele do calvário –, hoje, diante da magnitude dos roubos praticados pelos que, daqui – da nossa pátria, mãe gentil –, foram enviados ao novo Nirvana, era só um aprendiz. Afinal, o dito cujo foi enviado ao paraíso após o arrependimento e a morte. Não, ainda, em vida. Ou seja, constata-se que nem o Filho de Deus foi tão misericordioso, assim, quando feita a comparação entre o relato religioso e a realidade laica. É que, aqui, o jota é outro. Aqui o jota é de Janot. E só para não deixar passar, Janus era um deus pagão. Um deus com duas caras, mas, um deus. Cá, no berço da Tropicália e da Macunaíma, nasceu um novo deus; um deus chamado Janot. Ele é o que, de fato e de direito, abre as portas do paraíso. E só os muito maus, aqueles que se atolaram até o pescoço na podridão, na sórdida corrupção, podem comprar o passaporte para tal paraíso. Pois, só eles possuem a moeda exigida pelo novo deus: a delação premiada! Tal paraíso, contraditoriamente, não foi feito para os melhores, mas, para os piores. Vejam o caso dos irmãos Batista. Após batizarem quase dois mil novos corruptos, que ingressaram na nova seita dos assaltantes de cofres públicos, ao invés de padecerem no inferno das prisões brasileiras foram enviados para o paraíso de Janot. Lá, nos Estados Unidos. E nesse padrão paradisíaco, um pouco mais ou um pouco menos, já se acham tantos e tantos que receberam a graça da nova divindade. Sim, meus amigos, deus é brasileiro. Isso comprova que – realmente – somos muito criativos. Criamos o deus mais Clemente e Misericordioso da face da Terra. O inferno das prisões brasileiras? Segue sendo só para pretos, pobres e prostitutas, além dos reles ladrões de galinhas…

Tal qual num tango de Gardel, fez-se silencio en la noche. O Caffè Bric-à-Brac fechou as portas e a Cittadella Colturale pôde dormir em paz. Amados leitores, bons olhos!

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