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Profissão goleiro: posição mais solitária do futebol faz 150 anos

Tetracampeão Taffarel diz que arqueiro evoluiu em vários aspectos nos últimos tempos, mas essência permanece a mesma

Por: R7
Behind the gate net view - a male soccer goalie jumping in motion for a ball while defending his gates on wide angle panoramic image of a outdoor soccer stadium or arena full of spectators under a sunny sky. The image has depth of field with the focus on the foreground part of the pitch. Players are wearing unbranded soccer uniform.

Mesmo em um bate-rebate na pequena área, quando pernas e pés se misturam, o goleiro só tem olhos para o objeto mais cobiçado do futebol. Neste momento, o dono da camisa 1 executa sua dança, pula, se atira, se estica, faz de tudo para não deixar a bola cruzar a linha do gol. É algo magnético apesar de provocar o maior anticlímax do jogo. A esses anti-heróis é dedicado a próxima segunda-feira (26), Dia do Goleiro, profissão que completa 150 anos em 2021.

Um goleiro só se sente mesmo completo quando, no desfecho de tudo, alcança a bola. O destino dele, está nas mãos dela. É como controlar o destino da Terra. Vem à mente a cena do filme de Chaplin, com o personagem brincando com o globo. Tudo se mistura. Sem direito à falha como a história faz questão de sempre lembrar.

O Dia do Goleiro é em referência ao aniversário de Haílton Corrêa Arruda, o lendário Manga, grande ídolo brasileiro da posição, que completará 84 anos. Manga foi campeão por Botafogo, Internacional, Nacional do Uruguai, entre outros, e um dos goleiros da seleção brasileira na Copa de 1966. Mas a data serve serve também para marcar essa obstinação diária, o uniforme sujo, as pernas raladas e o viver em um lugar que mal nasce grama. A data celebra ainda aqueles que mergulham na terra batida em busca da realização ao menos por um instante.

Taffarel e o altruísmo

A obsessão pela defesa, no entanto, não faz do goleiro um privilegiado entre os outros. Ele não nasceu para se sentir a estrela, ainda que sua posição seja a única com um uniforme diferente. Nem mesmo um dos mais consagrados goleiros brasileiros, Cláudio André Mergen Taffarel, de 54 anos, hoje preparador de goleiros da seleção brasileira, vê a glória individual como o maior objetivo nesta função.

“O goleiro é parte do time. Existe uma relação de confiança recíproca, portanto o altruismo é do goleiro e também dos companheiros. O individualismo não tem espaço no futebol, o coletivo é que faz a diferença, isso já está provado”, observou o tetracampeão.

Neste ano, a profissão de goleiro completa 150 anos. Ela foi introduzida em 1871, na Inglaterra. Na ocasião, os times já eram formados por 11 jogadores, mas, até então, nenhum deles podia pegar a bola com as mãos. Oito anos antes, o futebol havia sido implementado oficialmente, segundo a Fifa, quando, em 1863, foi fundada a The Football Association, na Inglaterra.

Depois do goleiro, vieram a inclusão do pênalti (1891), da lei que impedia o goleiro de usar as mãos fora da área (1913), da lei do sobrepasso (1982) e da lei do recuo (1992). Tudo pareceu ser contra a já dura profissão de goleiro. Além das mudanças táticas, a função foi evoluindo com o tempo.

Treinamentos exigindo maior reflexo e agilidade foram se aprimorando desde Jaguaré, nos anos 30, primeiro brasileiro a atuar como goleiro na Europa (e que trouxe o hábito de usar luvas), até grandes nomes como Gordon Banks, Gylmar dos Santos Neves, Barbosa, Lev Yashin, Sepp Maier, Dino Zoff, Taffarel, Gianluigi Buffon e Manuel Neuer.

No início, a elasticidade era movida pelo dom natural e pela paixão. Grandes goleiros surgiram assim. Um deles, Marcos Carneiro de Mendonça, nos anos 10 e 20, o primeiro goleiro da seleção brasileira, adquiria reflexos agarrando laranjas jogadas por seu irmão, em casa, conforme contava Nelson Rodrigues.

Com o desenvolvimento de modelos de treinamentos em campo, o gol (de 2,44 metros de altura por 7,32 metros de largura) pareceu ficar menor. E os goleiros, além da paixão e do dom, ganharam força e se puderam se tornar verdadeiras muralhas.

“A essência (da profissão) é defender. Mas com as mudanças nas regras, jogar com os pés se tornou essencial para o bom goleiro. Sendo assim, também a preparação e o treinamento mudaram. O futebol se tornou mais rápido e as exigências de preparação física, para todas as posições, acabou aumentando”, afirmou Taffarel.

Razões da escolha

Ficou famosa a ideia de que o goleiro, de tão ingrata que parece a profissão, acabou indo para a função porque, na infância, era o que pior jogava na linha. Tem sentido essa máxima desde que isso remeta o goleiro à figura do gauche, do poema de Carlos Drummond de Andrade. “Vá ser gauche na vida”, dizia o poema, utilizando o gauche como um ser diferente, com estilo próprio, estranho até.

E assim, ser goleiro é ser um tipo de gauche. É querer transformar na prática esse sentimento de diferença, usando um uniforme distinto, tendo uma função única, com outras atribuições, conforme conta Taffarel, relembrando sua infância em Crissiumal (RS).

“Acho que tinha uns 8 anos quando joguei pela primeira vez como goleiro. Lembro que vestia uma camisa vermelha, e os outros colegas estavam de verde. Era no colégio, e fizemos uma foto. Minha lembrança é que naquela diferença de cor do uniforme, senti que eu era o goleiro, uma posição realmente diferente”, revelou.

O goleiro é parte do time. Existe uma relação de confiança recíproca. O individualismo não tem espaço no futebol

CLAUDIO TAFFAREL

Outro ex-goleiro gaúcho, Gilmar Luís Rinaldi, hoje com 62 anos, também tetracampeão, tem a mesma opinião.

“Decidi ser goleiro por causa das diferenças da profissão. Quando menino, gostava da ideia de jogar com um uniforme diferente, de ser o único a pegar com as mãos, de usar luvas. Esse é o impulso inicial. Mas, depois, ninguém aguenta seguir em frente se não tiver vocação”, contou Gilmar, que, assim como Taffarel, iniciou a carreira no Inter (RS) e passou por clubes como São Paulo e Flamengo.

Outra semelhança com Taffarel é o estilo discreto dentro de campo. Tranquilo, Gilmar jogou até os 40 anos e, mesmo no início da carreira, diz que tinha noção de qual seria o seu espaço dentro das equipes.

Decidi ser goleiro por causa das diferenças da profissão. Gostava da ideia de jogar com um uniforme diferente, de ser o único a pegar com as mãos, de usar luvas

GILMAR RINALDI

“O goleiro é o único que muitas vezes pode decidir um jogo. Ele é um ser solitário, mas está dentro de um grupo. Vejo isso como um lado positivo. Eu gostava muito desta situação. Sabia que a equipe estava nas minhas mãos mas ao mesmo tempo me sentia um coadjuvante. Só me tornava o centro das atenções em determinados momentos. Se o goleiro é o artista principal de um time, algo errado está acontecendo”, acrescentou.

A experiência aos 8 anos ficou marcada para Taffarel. Mas a vida de estudante o colocou diante do vôlei por um tempo. Foi uma forma, inclusive, dele manter o ideal de jogar como goleiro, até que a oportunidade surgisse. Enquanto isso, foi utilizando as mãos em outro esporte.

O caminho da glória

Taffarel surgiu como um fenômeno no fim dos anos 80. Tinha um estilo discreto, de poucos saltos, mas extremamente seguro. No seu início no Inter (RS), despontou como uma verdadeira muralha. Na Olimpíada de 1988, foi destaque na semifinal, pegando as cobranças de Janssen e de Wuttke, além de ver Klinsmann chutar na trave, quando o Brasil se classificou.

Mas, antes de se tornar tetracampeão mundial, também defendendo a cobrança de Massaro na final, experimentou o gosto amargo da profissão. A primeira vez que a muralha intransponível deu mostras que era humana foi em outubro de 1987 quando, em um Grenal, aceitou um chute despretensioso do gremista Jorge Veras, naquela derrota por 1 a 0.

Depois, em 1993, deixou a bola chutada por Pena passar entre as suas pernas, após tocar em seu calcanhar, no fim do segundo tempo, quando a Bolívia fez 1 a 0, naquela que foi a primeira derrota do Brasil em Eliminatórias (o jogo terminou 2 a 0). A pressão foi grande. Parte da crítica não o queria mais na seleção. Todos esses momentos não o impediram de manter o gosto pela profissão.

“Se o goleiro encarar sua profissão como fardo, não irá longe. Precisa saber que é uma atividade desafiadora, que te leva de heroi a vilão, e a gente precisa saber lidar bem com essa responsabilidade”, afirmou.

Nestes momentos, é preciso manter a identidade intacta. Neste sentido, o goleiro é dentro de campo quem ele é fora dele. Taffarel, que sempre se mostrou uma pessoa calma, considera que o goleiro pode ser explosivo ou tranquilo no dia a dia. Mas, como goleiro, tem de estar consciente de sua missão.

“A pessoa é a mesma. Mas o equilíbrio é muito importante dentro de campo. O jogo mexe muito com as emoções. Existe quem se exalta sendo calmo e o tranquilo que acaba brigando. Sem dúvida, consegui equalizar as emoções e passar tranquilidade para o time é uma qualidade para o goleiro”, destacou.

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