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Reportagem aponta presença de agrotóxicos na água que abastece Erechim

Corsan diz que a água distribuída à população atende rigorosamente à legislação brasileira que determina os parâmetros de potabilidade da água para os sistemas de abastecimento

Por: Da Redação com informações da Agência Púbica/Repórter Brasil
Fotos: Portal Por Trás do Alimento
agrotoxicos foto portal portrasdoalimento

De um total de 27 pesticidas que as empresas de abastecimento são obrigadas a testar, 14 foram detectados na água oferecida à população de Erechim. Os dados da Capital da Amizade compõem uma investigação conjunta realizada pela Agência Pública, Repórter Brasil e a organização suíça Public Eye, a partir de dados do Ministério da Saúde. As informações são parte do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), que reúne os resultados de testes feitos pelas empresas de abastecimento.

No entanto, em nenhum dos testes os defensivos agrícolas detectados na água do lago de captação apresentavam concentração acima do limite considerado seguro no Brasil. A substância atrazina, foi encontrada em concentração superior aos limites considerados seguros na Europa. Essa substância é princípio ativo de herbicidas utilizados na cultura do milho, e sua presença no organismo está associada a doenças crônicas como câncer, defeitos congênitos e distúrbios endócrinos. O produto é proibido na Europa desde 2004. O herbicida está na lista da Pesticide Action Network (PAN) avaliado como Altamente Perigoso. A atrazina é classificada pela União Europeia como uma substância com evidências de causar distúrbios endócrinos, que afeta o sistema hormonal. Outros quatro produtos associados a doenças como câncer, defeitos congênitos e distúrbios endócrinos também foram encontrados.

A Corsan por sua vez informa que os dados do Sisagua se referem à água bruta, e que sempre que é detectado algum agrotóxico na água bruta, é realizada a análise da água tratada correspondente, não havendo histórico de presença desse agente após o tratamento.

Entre 2014 e 2017 foram feitos apenas dois testes para a maioria dos produtos detectados na água de Erechim, sendo que todos que tiveram sua presença buscada apenas nessas ocasiões apareceram nos exames. Outros foram examinados em até 17 testes, como por exemplo a atrazina, que foi detectada em quatro dos 17 testes realizados no período. Essa situação também é preocupante, pois a quantidade de produto na água pode variar de acordo com a época de sua aplicação nas lavouras.

Outro ponto a ser destacado é que a água do reservatório que abastece Erechim apresentou a presença, mesmo que em quantidade inferior ao previsto como seguro, de produtos cujo uso está proibido no Brasil. Um desses casos é o do produto conhecido como “chumbinho”, altamente letal, e usado por contraventores para matar animais, e que acabou proibido em virtude de acidentes com pessoas.

agrotóxicoságua erechim

Conheça os riscos que os defensivos encontrados na água do reservatório da Corsan representam para a saúde:

O carbendazin, fungicida também proibido na Europa, apareceu nos dois testes realizados para o produto na água consumida em Erechim. O produto é apontado como provável causador de problemas mutagênicos, que pode causar dano no DNA, e tóxico para o sistema reprodutivo. Em 2012, os EUA proibiram a importação do suco de laranja brasileiro devido à presença deste fungicida nos produtos.

Mesmo proibido no Brasil o inseticida Dicloro-Difenil-Tricloroetano – DDT, assim como o DDE e DDD, aparece seis vezes nos 14 testes realizados no período. O agrotóxico está na lista da Pesticide Action Network (PAN) avaliado como Altamente Perigoso.  O inseticida foi também classificado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) como provavelmente carcinogênico para humanos. Também pode estar associado ao câncer testicular e câncer de fígado, além de provocar partos prematuros, danos neurológicos, respiratórios e cardiovasculares.Houve também fortes evidências experimentais de que o DDT pode afetar os sistemas imunológico e sexual. O DDT demora de quatro a 30 anos para se degradar, e vem sendo proibido desde a década de 70, pois teria efeito cumulativo no organismo.

O herbicida diuron foi encontrado nos dois testes para este defensivo realizados no período. Está na lista da Pesticide Action Network (PAN) classificado como Altamente Perigoso. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) avalia o Diuron como “reconhecidamente cancerígeno”.

O fungicida mancozebe, também foi detectado nas duas vezes em que foi testado. Está na lista da Pesticide Action Network (PAN) classificado como Altamente Perigoso. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) avalia o Mancozebe como provável cancerígeno.

Outros nove produtos considerados menos perigosos, foram detectados na água consumida em Erechim. Oito deles apareceram nos dois testes realizados para esses produtos, como o aldicarbe, carbofurano, clorpirifos, metamidofos, parationa metílica, profenofós, tebuconazol, terbufos. O 2.4D teve duas detecções em nove testes.

Alguns desses produtos, apesar de considerados menos perigosos que os anteriores, oferecem sério risco à saúde pública em doses elevadas, e sequer podem ser utilizados no Brasil.

O aldicarbe, por exemplo, é proibido no Brasil. Inseticida, acaricida e nematicida, conhecido popularmente como “chumbinho”, está na lista da Pesticide Action Network (PAN) classificado como Altamente Perigoso. O aldicarbe é classificado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como Extremamente Perigoso (Extremely Harzadous) do ponto de vista agudo. O uso do químico passou por processo de reavaliação no Brasil após a substância começar a ser utilizada para outros fins, tais como agente abortivo e em tentativas de homicídio e de suicídio, acarretando um grave problema de saúde pública.

O inseticida, cupinicida, acaricida e nematicida carbofurano, também proibido no Brasil, está na lista da Pesticide Action Network (PAN) avaliado como Altamente Perigoso. O carbofurano é classificado também pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como altamente tóxico do ponto de vista agudo.

O metamidifós, proibido no Brasil, está na lista da Pesticide Action Network (PAN) avaliado como Altamente Perigoso. O agrotóxico é classificado também pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como altamente tóxico do ponto de vista agudo. É proibido no Brasil

A parationa metílica, proibida no Brasil, está na lista da Pesticide Action Network (PAN) avaliado como Altamente Perigoso. O agrotóxico é classificado também pela Organização como extremamente tóxico do ponto de vista agudo.

O inseticida profenofós, autorizado no Brasil, mas proibido na União Europeia, está na lista da Pesticide Action Network (PAN) avaliado como Altamente Tóxico. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) também aponta a substância como altamente tóxica para abelhas.

O fungicida tebuconazol é utilizado em diferentes culturas, tais como frutas, hortaliças, cana de açúcar e trigo. A Universidade Federal de Viçosa fez um estudo para avaliar os efeitos do pesticida em morcegos que levou a alterações metabólicas e hepáticas.

O inseticida terbufós, proibido na União Europeia, está na lista da Pesticide Action Network (PAN) avaliado como Altamente Tóxico. A organização Mundial de Saúde (OMS) classifica o terbufós como um pesticida de toxicidade extremamente aguda.

O inseticida, formicida e acaricida clorpirifós está na lista da Pesticide Action Network (PAN) avaliado como Altamente Perigoso. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) também avalia o clorpirifós como altamente tóxicos para abelhas.

Preocupação entre profissionais da saúde

Essa situação não é exclusiva de Erechim, outros municípios da região também têm situação semelhante, veja a lista.  No Brasil entre 2014 e 2017 as empresas de abastecimento de 1.396 municípios detectaram todos os 27 pesticidas que são obrigados por lei a testar. Desses, 16 são classificados pela Anvisa como extremamente ou altamente tóxicos e 11 estão associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como câncer, malformação fetal, disfunções hormonais e reprodutivas.

Os números revelam que a contaminação da água está aumentando a passos largos e constantes. Em 2014, 75% dos testes detectaram agrotóxicos. Subiu para 84% em 2015 e foi para 88% em 2016, chegando a 92% em 2017.

O retrato nacional da contaminação da água gerou alarde entre profissionais da saúde. “A situação é extremamente preocupante e certamente configura riscos e impactos à saúde da população”, afirma a toxicologista e médica do trabalho Virginia Dapper. O tom foi o mesmo na reação da pesquisadora em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Pernambuco, Aline Gurgel: “dados alarmantes, representam sério risco para a saúde humana”.

Entre os agrotóxicos encontrados em mais de 80% dos testes, há cinco classificados como “prováveis cancerígenos” pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e seis apontados pela União Europeia como causadores de disfunções endócrinas, o que gera diversos problemas à saúde, como a puberdade precoce.  Do total de 27 pesticidas na água dos brasileiros, 21 estão proibidos na União Europeia devido aos riscos que oferecem à saúde e ao meio ambiente.

A falta de monitoramento também é um problema grave. Dos 5.570 municípios brasileiros, 2.931 não realizaram testes na sua água entre 2014 e 2017.

Coquetel tóxico

A mistura entre os diversos químicos foi um dos pontos que mais gerou preocupação entre os especialistas ouvidos. O perigo é que a combinação de substâncias multiplique ou até mesmo gere novos efeitos.  Essas reações já foram demonstradas em testes, afirma a química Cassiana Montagner. “Mesmo que um agrotóxico não tenha efeito sobre a saúde humana, ele pode ter quando mistura com outra substância”, explica Montagner, que pesquisa a contaminação da água no Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de São Paulo. “A mistura é uma das nossas principais preocupações com os agrotóxicos na água”.

Os especialistas falam muito sobre a “invisibilidade” do efeito coquetel. As políticas públicas não monitoram a interação entre as substâncias porque os estudos que embasam essas políticas não apontam os riscos desse fenômeno. “Os agentes químicos são avaliados isoladamente, em laboratório, e ignoram os efeitos das misturas que ocorrem na vida real”, diz a médica e toxicologista Dapper. Por isso, ela lamenta, as pessoas que já estão desenvolvendo doenças em decorrência dessa múltipla contaminação provavelmente nunca saberão a origem da sua enfermidade. Nem os seus médicos.

Questionado sobre quais medidas estão sendo tomadas, o Ministério da Saúde enviou respostas por email reforçando que “a exposição aos agrotóxicos é considerada grave problema de saúde pública” e listando efeitos nocivos que podem gerar “puberdade precoce, aleitamento alterado, diminuição da fertilidade feminina e na qualidade do sêmen; além de alergias, distúrbios gastrintestinais, respiratórios, endócrinos, neurológicos e neoplasias”.

A resposta, porém, ressalta que ações de controle e prevenção só podem ser tomadas quando o resultado do teste ultrapassa o máximo permitido em lei. E aí está o problema: o Brasil não tem um limite fixado para regular a mistura de substâncias.

Essa é uma das reivindicações dos grupos que pedem uma regulação mais rígida para os agrotóxicos. “É um absurdo esse problema ficar invisível no monitoramento da água e não haver ações para controlá-lo”, afirma Leonardo Melgarejo, engenheiro de produção e membro da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida “Se detectar diversos agrotóxicos, mas cada um abaixo do seu limite individual, a água será considerada potável no Brasil. Mas a mesma água seria proibida na França”.

Ele se refere à regra da União Europeia que busca restringir a mistura de substâncias: o máximo permitido é de 0,5 microgramas em cada litro de água – somando todos os agrotóxicos encontrados. No Brasil, há apenas limites individuais. Assim, somando todos os limites permitidos para cada um dos agrotóxicos monitorados, a mistura de substâncias na nossa água pode chegar a 1.353 microgramas por litro sem soar nenhum alarme. O valor equivale a 2.706 vezes o limite europeu.

O risco das pequenas quantidades

Mesmo quando se olha a contaminação de cada agrotóxico isoladamente, o quadro preocupa. Dos 27 agrotóxicos monitorados, 20 são listados como altamente perigosos pela Pesticide Action Network, grupo que reúne centenas de organizações não governamentais que trabalham para monitorar os efeitos dos agrotóxicos.

Mas, aos olhos da lei brasileira, o problema é pequeno. Apenas 0,3% de todos os casos detectados de 2014 a 2017 ultrapassaram o nível considerado seguro para cada substância. Mesmo considerando os casos em que se monitora 10 agrotóxicos proibidos no Brasil, são poucas as situações em que a presença deles na água soa o alarme.

E esse é o segundo alerta feito por parte dos pesquisadores: os limites individuais seriam permissivos. “Essa legislação está há mais de 10 anos sem revisão, é muito atraso do ponto de vista científico” afirma a química Montagner. “É como usar uma TV antiga, pequena e preto e branco, quando você pode ter acesso a uma HD de alta definição”.

Ela se refere a pesquisas mais recentes sobre os riscos do consumo frequente e em quantidades menores, um tipo de contaminação que não gera reações imediatas. “Talvez certo agrotóxico na água não leve 15% da cidade para o hospital no mesmo dia. Mas o consumo contínuo gera efeitos crônicos ainda mais graves, como câncer, problemas na tireoide, hormonal ou neurológico”, alerta Montagner. “Já temos evidências científicas, mas a água contaminada continua sendo considerada como potável porque não se olha as quantidades menores”, afirma.

Em resposta a essa crítica, um grupo de trabalho foi criado pelo Ministério da Saúde para rever os limites da contaminação. “Estamos fazendo um trabalho criterioso”, afirma Ellen Pritsch, engenheira química e representante da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental no grupo. Segundo ela, pesquisas internacionais e regulações de outros países estão sendo levados em conta. Criado em 2014, a previsão é que os trabalhos sejam concluídos em setembro.

Questionado sobre quais ações estão sendo tomadas, o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), que representa os produtores de agrotóxicos, fez uma defesa sobre a segurança dos pesticidas. Em nota, o grupo afirma que a avaliação feita pela Anvisa, Ibama e Ministério da Agricultura garante que eles são seguros ao trabalhador, população rural e ao meio ambiente “sempre que utilizados de acordo com as recomendações técnicas aprovadas e indicadas em suas embalagens”.

O sindicato afirma que a aplicação correta dos produtos no campo é um desafio e atribui a responsabilidade aos trabalhadores que aplicam os pesticidas. “O setor de defensivos agrícolas realiza iniciativas para garantir a aplicação correta de seus produtos, uma vez que alguns problemas estruturais da agricultura como a falta do hábito da leitura de rótulo e bula e analfabetismo no campo trazem um desafio adicional de cumprimento às recomendações de uso”.

Limites generosos

A larga diferença entre os limites fixados pela União Europeia e pelo Brasil é um dos principais argumentos dos críticos do uso da substância no Brasil. “Essa diferença só pode se dar por dois motivos. Ou porque nossa sociedade é mais forte, somos seres mais resistentes aos agrotóxicos. Ou mais tola, porque estamos sendo ingênuos quanto aos riscos que corremos”, provoca Melgarejo, da Campanha Contra os Agrotóxicos.

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A engenheira química Ellen Pritsch, representante da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental no grupo de trabalho que reavalia os limites dos pesticidas na água, discorda. Para ela, os atuais limites são seguros e foram fixados com embasamento científico. “O critério brasileiro é dez vezes menor do que o efeito que geraria problema. Então, mesmo que seja encontrado um percentual acima esse valor, ainda assim seria menor [estaria abaixo do risco]”, afirma.

Antes de aprovar os registros dos agrotóxicos, as empresas fabricantes entregam estudos com testes feitos com animais em laboratórios. O Sindiveg, sindicato da indústria de fabricantes de pesticidas, defende que esses estudos são o suficiente para avaliar os riscos das substâncias. “São estudos de bioconcentração em peixes e micro-organismo, algas e organismos do solo, abelhas, microcrustáceos, peixes e aves”, afirma nota enviada pelo Sindiveg em resposta às perguntas da reportagem.

A Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) informa que a água distribuída à população nos 317 municípios gaúchos, entre eles Erechim, atende rigorosamente a legislação brasileira que determina os parâmetros de potabilidade da água para os sistemas de abastecimento. E ainda que também são monitorados outros 46 tipos em atendimento à legislação estadual (Portaria 320/2014 da Secretaria da Saúde.

A Corsan ressalta que os dados utilizados na pesquisa apresentada foram retirados do Sisagua (Sistema de Abastecimento de Informação de Vigilância de Qualidade da Água para Consumo Humano) e referem-se a amostras de água bruta (ainda não tratada). A empresa informa que, sempre quando é detectado algum agrotóxico na água bruta, é realizada a análise da água tratada correspondente, não havendo histórico de presença  desse agente após o tratamento.

A Corsan e a Associação das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe) estão pedindo esclarecimentos ao Ministério da Saúde sobre os valores disponibilizados com relação à presença de agrotóxicos na água usada para consumo humano, a fim de não ocorrer interpretação equivocada como ocorreu no material divulgado por veículos de imprensa.

 

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